19.4.17

O meu problema pessoal com as galinhas




Estava por aqui enlevado sei lá com quê se é que havia tal coisa, quando me ocorreu - repentinamente – que afinal tenho uma incerta desavença com as galinhas. Assim à 1ª, a coisa não me parece ser grave, mas eu cá nunca tenho a certeza de nada. E já comecei a cacarejar justificações até são uns bichos interessantes, quando estão a comer debicam algo no chão tão rápido que nem enxergo o quê e depois atiram as cabecinhas para o céu e estão nestas figuras amiudadas vezes. Nos inícios de tais observações eu olhava - imediatamente ! - lá pra cima tentando vislumbrar o que era o alvo de tal curiosidade inopinada, digamos assim, pois por exemplo eu quando como, habitualmente olho para o que está á frente do meu nariz e deixo os céus para as ocasiões místicas. Prosseguindo os acima já citados cacarejos, também gosto das suas penas algumas mais, pois vê-se ali a mão da mãe-natureza o deslumbre da luz a desfazer-se em cores. Tive uma amiga artesã, que alimentava uma galinha com o intuito assumido de lhe arrancar apenas uma pena de vez em quando, para os seus colares & aquelas coisinhas que lhe davam o pão para a boca. É verdade! Também havia por lá 1 macaco pendurado nas traves da casa, que eram ramos grossos de uma acácia que lhe entrava por ali a dentro para lhe oxigenar gratuitamente o ambiente. Uma vez estava eu e ela esparramados lá no seu jardim sem cercas que se prolongava por uma floresta a sério cheia de cabeleiras verdes e borboletas estonteadas e pássaros lindos ao esvoaçarem com as suas cores tudo junto era bom respirar ali e então estávamos nós a fazer o nada e aparece o seu filho, por aí nove anos se tanto e deu-me uma lata de coca-cola transformada em cinzeiro para as cinzas do meu fogo no cigarro que ardia alheado disto tudo. O meu preconceito em relação á coca-cola é enorme, mas a Brigite sentiu logo a coisa e explicou-me que era a maneira do menino me dizer que gostava de mim e como não tinha + nada , costumava apanhar latas no lixo dos Sr.s lá em baixo na cidade e depois transformava-as no que lhe vinha á cabeça e ao coração e sinceramente aquilo era uma piquena obra de arte. Olhei para a criança como quem olha para um Deus e os seus olhos eram luminosos & felizes e eu,,,eu também fiquei feliz e com a voz embarcada até ás lágrimas que contive. A mãe sentiu tudo como só as mulheres assim sabem e ofereceu-me um chá que dividimos pelos 3.
Afinal, a bem dizer eu até gosto das galinhas, a maneira como se deslocam com as duas patas indecisas parecem á toa mas isso não passa de uma percepção pois suspeito que só vejo aquilo que sou e aí há que ter uma certa parcimónia nas coisas dos julgamentos, juízos de valor, essas lérias. Mas.
Afinal dei uma curva do caraças, fui ao monte Gólgota e já estava a perder-me entre judeus e árabes, quando – já agora aproveito para vos dizer que é tudo o mesmo pessoal, mas eles ainda não o sabem, e também ainda não vos disse o que trouxe até este recinto de desabafos para finalmente vos dizer que são precisamente 5 h. & tal da noite e ainda estou prá-qui com as minhas irmãs galinhas que são muitas no meu quintal, sem medos sem cercas dado que eu não as papo já faz um tempo que estava sentado á sombra de 1 pinheiro que também habita comigo ali no canto onde lhe deu para estar e dá-me pinhas ás vezes uma vez por ano também me oferece pinhões que eu amontoo numa tigela azul & branca da dinastia Ming que tenho na cozinha, foi uma namorada chinesa mesmo da China que ma deu o pai era podre de rico, segundo ela, mas fiquei sempre na dúvida se a peça era realmente verdadeira ou não, mas como não ligo a tais valores , o que me agradou foi a beleza da peça. À superfície na epiderme colorida, o branco e o azul entrelaçados como fios de cabelos ondulados parecem dançar uma música que só ouço às vezes quando o silêncio á-volta se fecha e eu estou muito dentro. Quando acumulo forças suficientes nos tais pinhões ás mãos cheias e quebro-lhes as couraças, um a um atentamente, com uma pedra de estimação que tenho sempre á mão de semear para ocasiões mais determinantes.
Depois desta ocasional divaganção retorno á cabeça da pescadinha de rabo na boca que agora com o tempo já é uma serpente a morder a cauda que dá veneno que também pode ser remédio tantas vezes se dá este caso o que nesta realidade pretendia dizer é que elas, as minhas amigas galinhas, têm uma relação íntima visceral com o Sol, que eu naturalmente também mantenho com todo o apreço deste mundo & dos outros, mas também gosto das estrelas e da lua e dos silêncios azuladamente brilhantes quando o são outras vezes nem por isso acontecem estas circunstâncias de 1 gajo estar ~ graças a Deus ~ a viver mesmo vivo no meio destas montanhas onde o meu patrão sou eu não.
J. A. M.
( Ano: ?)


 

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