José Alberto Mar. Com tecnologia do Blogger.

3.12.20

Não sei se volto a voltar


    ( Sol em Cabo Verde. Autor: J. A. M. )


Algures no Brasil cheguei a estar num Paraíso. E regressei.  Agora encontrei outro Paraíso. Não sei se volto a voltar. Começo por um dos lados: o mar sem fundo, no compasso di roncu di mar(1) a chegar claraMente até  mim. Depois há coqueiros esguios, altaneiros nas suas tranquilas danças  com a aragem muito ao de leve, afinal quem sopra por lá? E há as tamarineiras com os fortes braços erguidos para os céus e os seus frutos tombados doados à espera de quem lá chegue. Palmeiras com as suas folhas dobradas em devoção às 7 portas que iniciam as noites. Balançam-se também aos sons do mar, da lua que começa a ser maior no céu indefinito do meu olhar.

Estou nu, sentado com os pés apoiados na varanda azulzíssima e tomara eu estar assim tão nu por dentro. Agora vou colher uma cana de açúcar aqui do meu quintal e depois talvez vá soprá-la numa flauta vazia por aí adiante.

 Olhando, escutando, aprendendo a ser mais. 

O pássaro que me visita todos os dias merece agora toda a minha atenção. E ele já está ali, na sua árvore de eleição, misturado com as flores vivas cor-de-laranjas-acesas, pelo meio da folhagem verde escura porque efetivamente já é noite e tudo está demasiado claro para mim.


(1) “nos sons compassados das ondas do mar”. (crioulo do Sotavento).


 (Sidády Vêlha. Ilha de Santiago. Cabo Verde).

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P.S. Texto integrado no Livro de Contos, " O OURO BREVE DOS DIAS ", brevemente acessível ao público. Trata-se de um conjunto de textos escritos em alguns países lusófonos.

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