José Alberto Mar. Com tecnologia do Blogger.

31.3.23

Quanto demora uma idade a ser luz?

 

Pintura. J. A. M.


Alguém passeia-se algures por caminhos e paisagens onde há pedras pelo chão e acontece-lhe curvar-se de repente, por algo que o chama sem dar-bem-por-isso e há um diamante entre as suas mãos, o olhar turva-se pelo brilho que o sOl, atento a tudo onde há vida, lhe oferece no mesmo instante e depois há quem veja logo ali um presente, ou há quem não dê conta do vislumbre que lhe aconteceu e continue apegado aos seus hábitos, atirando o pequeno seixo para as águas de rio que desliza por perto no seu ocaso indiferente a tudo isto.

 Os hábitos escravizam, tornam-nos cegos.

Todos os dias acontecem coisas assim, parecem banais porque são diárias, mas não o são, não.
Nada é banal nesta vida que nos está acontecendo. E por aqui os diamantes não têm quaisquer preços, são iluminadas fontes metafóricas, criadas pela infindável sede que habita os profundos lençóis da Terra. E das pessoas, também.

 
 - Quanto demora uma idade a ser luz?

 

 

(Ourique. Alentejo. Portugal)

 

-in, livro de contos, escritos em Portugal, Cabo Verde e Brasil: O OURO BREVE DOS DIAS.2021


23.3.23

Estremece a estrela que em mim vive

Foto digital. J. A. M.

 

Estremece a estrela que em mim vive
naturalmente aberta
á escuridão
e nos 2 olhos cintila
o véu do instante, a aparência maior
do que é superfície e aí se afoga
pois na multidão dos dias a vida
tornou-se mecânica.

Vejo em todos os gestos um silêncio amparado
pelo silêncio que aspiro
o lugar onde qualquer semente pensa
sonhando com tudo
pois nada do que é fruto
acontece sozinho.


( J. A. M.)

21.3.23

DIA MUNDIAL da POESIA

Foto digital. J. A. M.

 

Felizmente vivo

 
de manhã, quando as aves lá fora
ainda estão entranhadas nos sonhos
e já várias claridades esvoaçam
abrindo as portas e as janelas
de encontro aos olhos de quem acorda

e os rios de ouro abrem as vozes
à procura dos mastros humanos
onde há gente viajada em nascentes

e a Beleza do Mundo é 1 presente simples
e tudo se ampara nos muitos eus
que devagar se unem
enlaçando a infância, o futuro e o agora

de manhã, quando algo estala
o silêncio instaurado e já ouço
o cantarolar aceso dos pássaros
Felizmente vivo
mais um dia.

 

( J.A.M.)

 

19.3.23

The Power of the Heart ~ Os Poderes do Coração.

Ainda demos as mãos, como quem uma constrói uma ponte

Pintura. J. A. M.

 

(…)As gaivotas vinham açoitadas pelo mar sem pescadores e abriam lá fora os espaços altos à procura. Eram sombras nos intervalos apanhadas pelos acasos, quando olhava de soslaio pelas vidraças húmidas do café.
Enquanto ambos estávamos num fogo adormecido apesar de não darmos por ele.
 
À-volta havia os outros, longínquas sombras, e em poucos minutos nem sombras já aconteciam. Por dentro senti metafóricos desejos de serem mais, algo que só na altura sabia: cresciam para cima e para baixo como nas árvores a seiva, nas galáxias a luz.

Ainda demos as mãos, como quem uma constrói uma ponte que agora vejo ter ficado perfeita, apenas no ar leve daquele momento.

(J.A.M.)

 

3.3.23

Paisagens abertas

Paisagem Árabe (198?). J. A. M.

 

Estamos numa viagem aparentemente  longa, “ um homem com pressa é um homem morto “ , eis um ditado destas gentes apaziguadas entre si no centro dos desertos (1) por aqui há tempo para tudo pois tudo é tudo, o silêncio cheio de ecos, o céu amplo e vasto e os horizontes eternamente demorados no presente, o tal tempo que foi expulso dos dias e das noites daquelas bandas Ocidentais por onde desandam  tantos desalmados a correrem sozinhos cada um com a sua meta e o descalabro dos seus desígnios impostos & aceites como únicos.

 – Mas, quem os convenceu de que sozinhos vão a algum lado?



(1) Deserto do Sáara. الصحراء الكبرى


( J. A. M.)