12.7.18

Diásporas ao Deus~Dará



já há uns bons tempos que não ia a um restaurante chinês e então hoje, sei-lá-porquê, deu-me para ir ao Restaurante da Rosa, mas afinal a Rosa andava por outros jardins…
Mal entrei, fui imediatamente recebido por uma jovem chinesinha que me abriu o espaço com uma larga simpatia que me surpreendeu. “Isto já teve melhores dias”, pensei. Sentei-me, retribuindo q.b. a simpatia da menina com um sorriso até sincero lá no fundo.
Comi algo comestível, e o melhor foi a salada, mastiguei esquecidamente os vegetais que depeniquei na travessa, com o complemento direto de um Evel branco fresco e para enlaçar a coisa no fim: café & saqué de rosas.

Enquanto o laço não acontecia, olhei à volta para os altos-relevos e as pinturas com o tal brilho eclético dos plásticos o que me seduz muitas vezes são as palavras desenhadas em mandarim, e olhando-as traço a traço, invento traduções rocambolescas, pois só cada uma dá pano para mangas.
Ponho-me a observar, comedidamente é claro, a empregada chinesinha bem acompanhada pela luz morna do local, fininha, impávida, e tentei adivinhar-lhe algo de dentro dela mesmo, para além da epidérmica empatia já demonstrada.
Não estava a ser fácil chegar a outros portos... 

O café e o respetivo anexo chegaram, a pikena estava por aqui há 1 ano, respondeu-me, com o seu ar naturalmente aprumado, já arranha o português do cardápio e até um pouco mais e, mais uma vez, aquela incerteza de eu a olhar, olhos nos olhos, e ela espreitar-me sei lá de onde. Disse-lhe que era um antigo cliente da casa, perguntei-lhe onde parava a Rosa e ela disse algo de “Avero” (Aveiro?), acrescentei mais umas lérias oportunamente circunstanciais tentando prepará-la psicologicamente para me oferecer, por decisão própria se possível, o 2º saqué de rosas, que afinal no tempo da Rosa era trigo limpo, ai que porra.

E eu gosto deste “bagaço”, não sei bem se é pelo saqué em si e o seu efeito em mim, se é pelas rosas, pois eu amo todas as flores, eu amo as cores, eu amo os aromas, as suas elegâncias, os silêncios, as sombras, a permanente entrega aos outros e a si próprias, Oh! como eu amo as flores. Sempre tranquilas sempre à mão de semear de qualquer mão amiga ou matreira, eu amo despudoradamente estas criaturas de deus, que não se cansam de me ensinar coisas das artes e da vida.

Entretanto dediquei-me ao café e ao tal néctar, que acontece em cálices pequenos, rendilhados com dragões a fumegarem linhas curvas, e eis a piada da primeira descoberta: quando a coisa está cheia, a gente ao beber o primeiro gole repara que lá no fundo está uma sr.ª toda descascada numa pose abertamente descarada e a gente olha e das duas uma, ou ficamos enlevados eternamente por caminhos lúbricos & afins ou então continuamos a bebericar, pois em princípio é este o objetivo do ato, enquanto a provocação se vai diluindo no fundo vazio do olhar, até desaparecer de todo.

Bá-lá, entretanto a música? suave & calma parece mal dizer oca, obrigava o maralhal ali presente, demasiado próximo ao meu território, a amainar a algazarra com que tinha entrado, o que eu agradeci muda e convictamente aos músicos chineses, aos deuses chineses e também portugueses e a tudo o que ocasionalmente tinha contribuído para tal. Cansado de vislumbrear, pedi a conta, que remédio, com um gesto arredondado de uma só mão (mas ainda com umas ténues esperanças do que seria provável acontecer-me) e o tal saqué de borla Lá Surgiu, meticulosamente colocado ao lado do raio da conta. Enfim, vale mais tarde do que nunca (dizem eles que um dia, um dia é que vai ser) e rejubilei saborosamente por ter reavido tal privilégio, atirando o último trago goela abaixo e sentindo-me deliciado com o fogo que se extinguiu melodiosamente pelo corpo todo.

Com tais sortilégios acontecidos, saí para a rua bem senhor de mim mesmo e do meu destino, fogueei 1 cigarro no meio da noite e algumas estrelas permitidas pela névoa citadina deixaram-me que tal acontecesse: neste antro insano de concorrências, foi milagre !



(Rascunho Nº 216.Portugal.2010)



6.7.18

cem títulos


(...) falo-te das sombras acesas das coisas da vida, essas paisagens atravessadas pelo rigor dos dias e das noites, exatamente como se todos os lugares tivessem a mesma forma do que és.
Vivemos por circunstâncias, sempre dentro sempre fora, muito mais dentro do que sabemos, com a nossa liberdade e o nosso desconhecido destino distraído em nós.
Frondosas árvores crescem sobre pedras.


(1999)

25.6.18

hoje deu-me para ir jantar fora



Hoje, deu-me para ir jantar fora. Ao restaurante mais próximo, dado que estava a chover e eu e os guarda-chuvas não temos uma relação lá muito íntima, mas com o tempo lá acabei por aceitar tal facto. O que a gente não acaba por aceitar, com o raio do tempo? Lá fui entre a noite bem escura e as gotas de água fria que me perseguiram até à meta pretendida e quando desemboquei na coisa é que me apercebi que amanhã será feriado e por conseguinte todo o pessoal da zona lhe deu pra ir prá-li.
Lá me alinhei aprumadamente na fila de espera depois de emprestar o (meu) nome ao men de serviço nos apontamentos lá fiquei entretido com o vái-vém corredio dos empregados, mais um ou outro personagem que sobressaia e me levava o olhar para lá onde acabava por se esfumar (as mesas fartas, as bocas a mastigarem abertamente, os vários planos arranhados das algazarras, os omnipresentes telemóveis pelo meio das batatas fritas as carnes a fumegarem, o ruido abrupto das 4 pernas das cadeiras juntas quando deslizavam, um prato que foi desta pra melhor forçando à despedida a presença obrigatória de muitos olhares, por aí…..)

e sem dar por isso já estava a ser encaminhado por um empregado conhecido que me levou pela mão (esta inventei agora :-), para uma mesa com duas cadeiras, onde obviamente só ocupei uma. Aparentemente. Dado que a outra, por debaixo da toalha de linho rafeiro, abandonada na queda, servia-me para apoiar confortavelmente as sapatilhas encharcadas de todo. Por cima da minha cabeça havia uma T.V. e no início estranhei tanta gente a olhar para mim. O meu ego veio ao de cima mas logo o despachei, pois tenho mais que fazer.
Dado a algazarra inopinada (em relação às minhas perspetivas iniciais), explico, não só pelo feriado já aludido mas também porque já começou a coisa do Natal e ele há grupos mais grupos a juntarem-se para se comemorarem e ainda bem quando chegou o empregado com aquele livro muito fino que só tem meia-dúzia de folhas habitualmente, mas aqui fica-se pelas duas, eu disparei-lhe logo a solução: ½ dose de açorda de camarão (lá são generosos nisto, já não é a 1ª  vez)  e o  maduro branco da casa ( é do Douro, bonzinho até à data), e aguardei pastando o olhar pela multidão de vozes e rostos e gestos e televisões ligadas nos 4 cantos do lugar, nesta altura do campeonato, ainda abandonadas de todo, quem diria? Felizmente o pedido não demorou a ter resposta, pois já estava a esgotar o cardápio visual & sonoro. Debrucei-me sobre o assunto em questão e isolando-me do mundo à-volta, saboreei o repasto, pois realmente a fome é negra, como dizem os pobres pois os ricos ainda não chegaram lá e com a noite da alma onde vivem ainda mais, depois havia ali mesmo à frente do meu nariz mais 1 camarão rosadinho que nem as bochechas de uma minhota, mais uma conchinha para escancarar, mais uma colherada de açorda com orégãos & a faca o garfo entrecruzando-se num bailado amistoso + uma golada do vinho fresco, tudo estava a ficar  mais claro e comecei a serenar os impetuosos ânimos um tanto ou quanto já exaltados do meu dele estômago que desde manhã cedo, não tinha vislumbrado niente. Fizemos as pazes, finalmente nunca é tarde para tal deslumbrante facto, a meu ver.

Mastiguei demoradamente, como é meu hábito, entretido com os minúsculos sabores que advêm de tal esforço pelos vistos compensatório para as papilas gustativas que bateram palmas em uníssono e  escortinando agora à-volta aquele mundo parecia-me longe. Tinha-me desligado. Aprendi esta pequena arte algures com um mestre budista que, mal me apanhou a suplicar-lhe pela iluminação, me enfiou numa gruta sozinho por um ano e tal. Foi numa alta montalha do Tibete (bem perto de um portal) toda alva de neve e quando saí de lá até voei. Bendito mestre.
Bons tempos...em que entre mim e os anjos apenas havia a diferença no comprimento das asas.

Depois regressei aos insanos ocidentes made in U.E. prá-ki made in U.S.A. prá-li, mais o Trump e o Kim naquelas poucas vergonhas, tudo no fundo feito num nó cego bué amistoso &  mafioso, e todas as tais minhas asas foram à vida. 1º fiquei desencantado de todo numa tristeza sem nexo ( e sem sexo) , depois caí numa depressão horrível e mais depois, logo a seguir, psicólogos psiquiatras pírulas um balúrdio de $ na farmácia [1]. Terra esta de danados... Também de pessoas simples, humildes e humilhadas tantas vezes, parece-me que só ás vezes damos por isso.

Após um café e um incendiário bagaço (fabrico caseiro de alambique, proibido nas Europas eles lá sabem o que fazem?) lá me dispus a declarar-me à noite que remédio, regressando a casa entre estrelas muitas e gotas de chuva agora prateadas pela luz descarada que descia da lua cheia.



mês do Natal( Rascunho Nº 241)








 [1] Onde, graças a Deus, me deixam pagar ao fim do mês quando o patrão me dá, também dizem: graças a Deus, o tal de ordenado mínimo.


Série: Labirintos Acesos

120X120 cm. Autor J. A. M. - 2018
~
Linkhttps://www.ted.com/talks/janna_levin_the_sound_the_universe_makes#t-277925

22.6.18

Blog: Gazeta de Poesia Inédita.


Celebro a vida todos os dias.


o silêncio serpenteia-se nas ondas do ar a boca da noite
abre as flores do coração curva os sons que tem sempre à mão
e o tempo habita-nos mais ao sabermos nos olhos as sombras
que se despedem das árvores onde os pássaros acordam
os primeiros tons do dia sob o lençol verde às tantas
da manhã pelas cinco e tal ou quase assim começam a sinfonar
uma visão acesa para quem esmorece ainda é cedo ainda há o segredo
de haver um mundo contudo sagrado.

( J. A M.)

Link: https://gazetadepoesiainedita.blogs.sapo.pt/jose-alberto-mar-celebro-a-vida-todos-4994

13.6.18

"os trabalhos e os dias"



é necessária uma longa preguiça
laboriosa distracção para que o acaso encontre
as portas do seu espírito.

é preciso aguardar atento

esses nomes estremunhados ainda
circulando sobre os corpos a espera
no sono disfarçado pelas mãos.



( 2001 ? )

5.6.18

coisas nocturnas



até que enfim o Porto hoje era uma cidade viva às 3 horas da manhã ainda havia uma chusma de gente nas ruas à volta dos Clérigos e enquanto resolvia comigo a estranheza da novidade, acabei por me sentar numa cadeira à frente do café Piolho. havia pessoal desordenado em grupos, falavam, riam, bebiam. Gostei. havia um aroma quente no ar & fiquei por ali o tempo de 2 finos frescos, ou foram mais?
Depois, atravessei a escuridão do jardim da Cordoaria, onde revi de soslaio, mas com atenção, as estátuas do Juan Muñoz. com aquela parca luz geral a gentinha do Muñoz ganhava um ar mais severo e bizarro. Mas, porque é que não estavam parados?

As extensas sombras pelo chão pareciam levitarem ao som dos candeeiros sobriamente acesos. ao fundo, ainda estalavam no ar as gargalhadas dos jovens, abrindo a noite a outras luzes mais.



( 2009. Rascunho Nº 213 )

25.5.18

Sinetes Lunares



à-volta era um lugar que, mal entrámos, se tornou ausente. Talvez houvesse um espaço, um tempo, quatro olhos duas pontes ambas para lá ambas para cá, sobre algo circular o tampo de mármore da mesa onde as palavras caiam finitas e havia estrelas a rebentarem sozinhas no desamparo dos dedos quando se tocavam. Bailando, bailando os  dedos finos uma alma sensível no fim das hastes, re/parei.

As gaivotas vinham açoitadas pelo mar sem pescadores e abriam os espaços altos à procura. Eram sombras nos intervalos apanhadas por acasos, quando olhava de soslaio pelas vidraças húmidas do café, já não eram. Ambos num fogo acontecido apesar de (não) darmos por ele. À-volta, mais uma vez, havia os outros longínquas sombras, e em pouco tempo, nem sombras. Por dentro aconteciam metafóricos medronhos nos seus etílicos desejos de serem mais -  do laranja ao ouro – algo que só na altura sentia ou sabia, crescia para cima & para baixo como nas plantas a seiva, nas galáxias as luzes vagabundas.

Agora vejo como fui vago nessa travessia.  Luz dos teus olhos bebiam a minha sede. E, era uma sede demasiado. Devia ter-te deixado viajar mais para dentro. Ensaiar-me nas danças do silêncio que fazemos para que aconteçam, expô-las desocupado. Escutar-te nos teus altares. Aguardar o fino ouro do teu mistério.


(J. A. M. )

17.5.18

Selfie

Foto: J. A. M.























Conceito da obra: adaptação ao mundo da "pós-verdade".

7.5.18

onde o Sol é mais perto



Às vezes pego no bloco. Pego na caneta. Fico assim horas a fio a olhar para o a noite do céu, depois a incerta altura, desço
o olhar

1 pirilampo aqui outro acolá na espessura da noite por detrás da sebe deste jardim há um chaparro com ramos ainda pouco rugosos onde a cortiça respira e cresce sem darmos por isso e as folhas todas juntas formam uma cabeleira que estremece & dança, muito espaçadamente, com a aragem que sopra dos lados do mar enquanto o algodão dos álamos dança no ar e uma sisão algures espalha as pautas.

De repente, a chuva parou.
Gotas de água escorrem de folha em folha e depois apagam-se no chão onde as raízes das plantas absortas se abrem ao desejo da sede. E as folhas cintilam sob o peso da luz que desce dos candeeiros. E são belas assim, nos seus verdes flamejantes contra as obscuridades à volta. Na superfície azulada de um pequeno lago provisório, estranhamente ondulado, está a lua estampadamente enorme.



( Algarve. Rascunho Nº218)
Foto: j. a. m.

25.4.18

Poema em saldo Nº 25



uma data que regressa
transparente à cabeça um sino
pendular nas cavernas do corpo
e então escrevê-lo é abrir as potências
do sangue, dos pés até à raiz
dos cabelos, deixar crescer
a vida circular dos dias
pelo silêncio poderoso
se fundamenta um olhar
um sonho uma estátua invisível
dentro da memória
ordena-se o esquecimento
mantendo sempre a respiração do Mundo
entre muitos e muitos horizontes.



( 1998)

12.3.18

HÁ GENTE QUE MANDA NA GENTE SÓ PARA SE SENTIR GENTE




há “gente” que só manda na gente para se sentir gente. Eu, cá pra mim, não gosto dessa “gente”. Prefiro, de longe, a gente que gosta da gente, sem lhe apetecer mandar na gente. Pois, essa “gente” que só gosta de mandar em toda a outra gente para se julgar gente, cá pra mim, não são gente mesmo. Porque se essa “gente” fosse realmente gente, entendia claramente que não é necessário haver gente-por-cima & gente-por-baixo, dado que toda a gente nasce despida e toda a gente vai desta para melhor, vestida por outra gente.
Mas, porque é que o raio que os parta dessa “gente” que continua a mandar em toda a outra gente, não começa por saber mandar neles próprios, para se tornarem verdadeiramente gente? Essa “gente” é mentecapta, idiota, inteligentes sem dúvida só que têm a inteligência ao serviço da estupidez, têm a esperteza do tamanho da astúcia, são inequivocamente infelizes, intranquilos, sem paz por dentro, desalmados até, mas que culpa tem a gente disso?  embora essa “gente” nos castigue continuadamente por isso. “Gente” deste & daquele ramo desta árvore putrefacta, crentes disto & daquilo, governantes grandes & governantes pequenininhos, lá vê a gente, aquela outra “gente” a escravizar, a ignorar, a enganar & a roubar a gente.

Claro que também há gente que se deixa mandar bem por essa “gente”, e então só é gente assim-assim, entre os 2 lados das gentes. Nesta coisa de haver gentes, “ser ou não ser é mesmo a questão “, pois não há meias-gentes, propriamente dito.
etc.




( Rascunho Nº 287.2005)

27.2.18

DIÁSPORAS AO DEUS~DARÁ




Santo Antão, a ilha dos andarilhos



Quando cheguei a Porto Novo, através de um ferryboat que dançou toda a viajem desde São Vicente, dei-me conta que não tinha 1 escudo em nenhum bolso. Máquinas automáticas por ali também não. Mais uns minutos adiante o gerente da única dependência bancária no local, após uma conversa que tentou ser convincente & persuasiva e até o foi ao cofre da dita e depositou-me 10 contos na mão. Depois paga-me. Nada habituado a tais gestos apeteceu-me repentinamente beijar-lhe os pés, mas no lugar dos mesmos havia uns sapatos pretos a reluzirem que me estancaram a intenção e ainda fui a tempo do tal bom senso. Após as mais que necessárias palavras da ocasião, amanhã venho ká pagar-lhe/ não é necessário basta depositar nesta conta lá no Mindelo/ Muitíííssimo obrigado e aqui num gesto realmente espontâneo que me acontece muitas vezes graça a deus, fiz da sua mão dtª uma pérola com as minhas duas mãos em concha, olhei-o nos olhos disse-lhe algo onde as palavras não chegam, mas vi logo que ele tinha chegado. Os cabo-verdianos são pessoas subtilmente sensíveis e suspeito que a morabeza será um dos frutos desse estar. (1)
Ficou um sorriso cúmplice matriculado no ar, algo de belo neste mundo, a que regresso algumas vezes pelos imperiosos acasos da memória ou os outros casos que não sei.


E saí para o sol que logo me abençoou num aconchego entre nós tão íntimo tão normal que me senti humildemente feliz com os meus botões, neste caso de rosas que brotaram de repente à frente dos meus olhos deslumbrados.


E então chamei a namorada que estava visivelmente em baixo devido à situação nesta outra altura já resolvida. Dei-lhe uma explicação por alto acerca do milagre acontecido, metemo-nos num “hyace” que estava por ali à espera de ficar cheio e lá fomos sem precisarmos de saber  qual o destino, mas tão contentes com a vida que até nos apeteceu fod.. mas as circunstâncias eram aquelas e a coisa foi preenchida com beijos & abraços naturalmente consentidos pela agradável vizinhança. Desembocámos em Paúl, depois de uma stopagem mais ou menos breve numa montanha altíssima cujo nome não me ocorre agora, mas ocorre-me muito bem a beleza estonteante das paisagens que se multiplicavam entre si nas incontáveis pontes do olhar. Lá em baixo o desenho de um telhado de milho seco aqui outro ali, mais uma cabra ou outro animal manso ligados ao silêncio de basalto que murmurava algures num ribeiro vivo por aquelas “levadas”.

Um tanto ou quanto azurumbados pelos ziguezagues do percurso começámos por enxergar  algumas casas juntas com as portas e as janelas de cores vivas claramente, o cheiro do marisco a toldar tudo muito parado aparentemente com as raízes afundadas nos desígnios de uma ilha onde jovens dengosas deitadas sobre os muros das suas vidas e amornecidas pelo sol alongavam as belas pernas nuas para o mar que estava bravo & os machos entretiam-se convictamente a jogar o  “úril” (2) entre os meandros das bolinhas verdes escurecidas por muitas gerações e protegidos pelas sombras bafejadas por um marmulano.

Como todos sabemos, quando estamos bem o tempo é outro (3) e, entretanto, chegou a hora já pago o bilhete de retorno
- Lá me arrankei do lugar e só eu e Deus é que sabemos com que esforço transportámos dali os olhos os ouvidos o corpo inteiro a transbordar em ondas. Quando me aproximei de Mindelo num outro ferry ainda mais baloiçado reparei no habitual nevoeiro agora aceso pelo pôr-do-sol que acontecia sobre a cidade. Também re/parei que estava só e quase tinha a certeza de ter ido com a namorada.
                     

Desembarquei com aquele maralhal todos muito coloridos por fora & por dentro à espera havia outros aromas atlânticos que me acompanharam até ao “café Poeta”, troquei algumas frases com uns amigos acerca de algo que talvez fosse relevante na altura e depois de um jantar na esplanada do Grande Hotel, de onde lançava olhares que dançavam com o  bulício redondo da Praça Nova, por fim,  abri-me à noite mindelense e fiquei com a impressão que fui engolido pela mesma francamente já não me lembro de + nada






(1)  " É por isso que te aconselho a tomares lição nessa gente para depois falares, com propriedade, da sua vida e das suas lutas. Se queres falar de dor, sofre primeiro. Sem isso não mereces o mandato”.

(Manuel Lopes, escritor.)


(2) " Pensa-se que o jogo terá sido inventado pelos egípcios que depois o levaram para a Ásia e Filipinas. Mais tarde, chega à África Negra, e região do Sahara. Por volta do século XV ou XVI, os escravos terão levado o úril da África para a América, mas atualmente apenas há registo de que se pratica nas Antilhas”, explica Albertino Graça, praticante de úril e autor do livro “Jogo de Uril: Regras, Estratégia e Teoria” (Edição da ONDS - Organização Nacional da Diáspora Solidária, Mindelo).


(3)    O que prova evidentemente a sua inexistência.







(Cabo Verde. Rascunho Nº  38 )




Srª. de Santo Antão
-
Foto: j. a. m. e   Sr.ª  D.ª  Olívia Santos










Postais

-.- dr. zé kalunga -.-

23.2.18

Msg a Garcia



O OUTRO LADO DA LOUCURA


Pessoas socialmente integradas podem ser loucas


( por Roberto Goldkorn )
" Estou acabar de ler uma das mais completas e fascinantes biografias do psicólogo suíço *Carl Gustav Jung (1875-1961).
Para quem não conhece a sua obra ou para aqueles que não concordam com a sua visão de mundo, certamente não deve ser uma leitura tão fascinante quanto está sendo para mim. Mas isso é só para dizer que me emocionou a luta de Jung contra a "loucura" em suas mais variadas manifestações.

Mas não só de Jung, de todos aqueles que estão em campo para atenuar o sofrimento daqueles que sofrem pela manifestação dos sintomas de enfermidades mentais, e que procuram ajuda desesperados.
Porém essas pessoas ainda têm alguma esperança, já que tomaram consciência de que precisam de ajuda, ou foram levadas a isso por parentes que sofrem junto.
Quero falar aqui, no entanto dos milhões de afetados pelo flagelo da doença mental, que nem de longe se consideram "doentes". São empresários, executivos, profissionais liberais, donas de casa, funcionários públicos, enfim são tudo que a sociedade enseja a todos. Mas eles estão lá, muitas vezes até estimulados por certas culturas ou modismos a expor as suas neuroses e psicoses fazendo estragos à sua volta.
Infelizmente ou felizmente tive a oportunidade de ter meus caminhos cruzados com vários desses exemplares de "loucos socialmente integrados". Até à pouco tempo atrás não tinha consciência do porquê certas pessoas me afetavam tanto, inclusive algumas dentro de minha própria família.
Ingenuamente acreditava que o meu problema era com essa ou aquela pessoa, seja pelos vínculos familiares, profissionais ou sociais. Mas a evolução do meu pensamento está chegando a um ponto muito interessante, onde percebo que não são ou não foram as pessoas que me afetaram (ainda afetam) tanto.
Ao perceber em todo o mundo os estragos que a loucura, seja ela maquilhada  de fé, fanatismo, ou ideologia, causa,  concluí que a minha diferença é com esse flagelo, e não com os indivíduos que lhes servem de "médiuns".

Recentemente vi um episódio acontecer numa  família, onde uma onda de destruição sem sentido por pouco não causa um tragédia. Mas mesmo sem ter tido desfecho sinistro, já teve um desfecho sinistro.
Ao roubar desses familiares a possibilidade de um convívio amoroso, e de uma associação para o progresso profissional, a maldita demência seja ela qual a classificação tenha, é uma praga perniciosa.
Tenho tentado um distanciamento suficiente para analisar os componentes, origens e possibilidades de tratamento dessas manifestações de desequilíbrio mental e porque não dizer espiritual.
Não posso dizer que tenho o diagnóstico dessas tantas "loucuras", e nem de longe atino com uma solução. Mas tenho observado o que os grandes mestres da mente apuraram ao longo de suas vidas e procuro somar com  as minhas observações.
Uma constatação interessante, é que há um amplo terreno comum para essas manifestações, e quase todas podem ser detetadas por uma observação isenta, a não ser pelos próprias "vítimas".
Por exemplo, essa "doença" os integrados sociais, leva ao comportamento extremamente EGOCÊNTRICO. Isso significa que essas pessoas não conseguem pensar ou sentir nada além das suas próprias emoções, dores, alegrias, e desejos.
Quando vocês estiverem diante de alguém capaz de disputar quem teve a maior desgraça, a maior dor, a pior doença pode ser que esteja diante de um desses exemplares. O egocentrismo também os leva a identificação a  "coisal" (nomenclatura minha). Isso significa que eles ou elas são capazes de se ofender, de se magoar profundamente (ou de  se engrandecerem) se o seu carro for desvalorizado, ou se a marca do sapato que usam for considerada de baixa qualidade.
O egocentrismo exacerbado dessa doença faz com que vejam como extensões de si mesmo suas posses, ou itens que apenas momentaneamente estão nas suas vidas.

Outro fator desse egocentrismo doentio, é a incapacidade total de ouvirem! Duplamente eles não se ouvem - não são capazes de analisar e extrair significado daquilo que dizem. E também não sabem extrair significado do que os outros dizem, a não ser que seja uma ratificação absoluta (sem trocar vírgulas) daquilo que pensam pensar.
Esse mesmo egocentrismo os coloca em situações esquizóides mas eles não conseguem perceber ou tirar dessa observação uma luz que indique que o rumo se perdeu. Por exemplo, é muito comum observarmos uma dissociação gritante da vida do doente com aquilo que ele diz ou pensa. Em geral a vida dessa pessoa, como não poderia deixar de ser, costuma apresentar-se como uma sucessão de desditas. Caos familiar, caos na saúde, caos na vida profissional, etc. Para não deixar que essas situações atinjam o âmago da doença obrigando-os a buscar ajuda, eles lançam mãos de mais recursos malabarísticos retóricos ou não para resolver o que os psicólogos chamam de "dissociação cognitiva" - abismo existente entre o que pensam, dizem e fazem.
Contorcionismo demencial
Recentemente ouvi uma dessas pérolas do contorcionismo demencial: um desses afetados que foi posto para fora de casa pela mulher e pelos filhos depois de um longo períodoapr provocando barbaridades, no auge de uma discussão com outra pessoa tiru a segunte conclusão: "Eu vivo para a minha família!"
Um outro cuja vida é uma sucessão de atos perversos, chantagens, truculência contra a própria família, manipulação (são loucos, mas não são burros), afirmou no clímax de uma discussão que percebeu que não poderia vencer: "O que todos precisamos é colocar Deus no coração. A humanidade precisa de Deus, de perdão, de reconciliação." A principal característica da "doença" é justamente essa enorme cratera entre o que diz e o que a vida dele apresenta.

A minha reação sempre de pé atrás, sempre de grande sensibilidade a essas pessoas na verdade é de revolta contra essa doença invisível que destrói tantas vidas, que corrompe tantos futuros promissores, tantos projetos de felicidade.
(...) 

Para quem ainda não foi afetado, que fiquemos de olho vivo. Se alguém disser que a marca do seu carro não é lá essas coisas, e você ficar irado, ou com raiva do "acusador" como se ele tivesse ofendido a senhora sua progenitora, talvez seja hora de buscar ajuda. Se achar que isso não é motivo para tanto, aí por favor, não esqueça de que fui eu quem avisei."
*Jung era médico. Teve uma formação como psiquiatra, mas atuou a vida toda como psicanalista, mas como a psicanálise é uma criação do Freud, ele criou a sua propria escola que foi denominada  de psicologia analítica.

um marmelo ao sol amarelo com azul dá verde

- a Arte de um marmeleiro -
~
Foto de: 1 marmelo, folhas de marmeleiro, pedaço de céu , sol &  j. a. m. 

20.2.18

KOISAS ~ DO ~ MOLESKINE ( 3ª folha)




às 5,48 da manhã fomos abrir o sol prós lados onde o mar fica mais a jeito. O areal já não é o que era havia um pescador depois outro alguém tirava fotografias e 
mal as olhava ~ as ondas ~ as ondas ~ as ondas não paravam de acontecer. O mar parecia um longo vidro quebrado em pedaços dançantes sob a luz ondulada do sol. Um passeio pela orladura pedrinhas luzidias no chão depois não serão, pedacinhos de conchas que foram, também o ruído no olhar de latas marcas adiante & garrafas verdes, até preservativos ainda bem preservados.

Dentro do bar, o sol caía sobre o meu rosto e simultaneamente na heineken que me segurava  a mão suspensa na sede. Uma sede silenciosa em si demorada em cada trago, pois a namorada era calada e o cenário à volta parecia-me inesperadamente distante: telemóveis agarrados às mãos, cabeças curvadas um ou outro colar ou brinco pendurados no brilho, outras figuras atentas a 1 café ou a uma torrada  ou a um fino a borbulhar amarelíssimo sobre a superfície viva de 2 lábios semi-abertos pintados de carmim talvez fosse uma dádiva celeste  para o meu estar na altura, o tal rosto pelo menos de perfil era belo recortado contra o fundo geral, também haviam nuvens de  palavras cruzando-se no ar frases soltas que se soltavam  & esfumavam com os laços voláteis dos cigarros sem alguém  parecer (querer) dar por isso, atmosferas assim sem dono à vista desarmada.

E quanto ao mar, mal o olhava lá estava ele vivo, o  m~a ~r  galgando-se onda após onda crescendo avançando regressando a si, contra o impávido areal golpeado: quando repousas?

Ao longe o sol lá ia no seu ritmo que também era o nosso e please, por agora no photos, já há tantas. Roubamos tudo às paisagens uma flor aqui uma imagem acolá, para as trazermos para dentro das nossas casas, dos nossos próprios vazios, um dia destes como será?

Depois fomos ver os pinheiros. Estavam juntos e pareciam muitos, é o novo  hábito de serem novidade num país queimado todos os Verões * ao sabor dos lucros & das voracidades da kambada. A certa altura estacionámos a carroça (levámos o burro e o respetivo veículo que um dia adquirimos por tuta & meia a uns ciganos desesperados no Alentejo) e foi tão belo aquele momento que até o aroma amarelo de umas mimosas ali perto, nos alertaram para a evidente beleza da vida. Como se tal fosse necessário, mas pelo sim pelo não, aproveitei para efetuar a habitual vénia diária a Tudo.

Mal demos conta já estávamos à frente de alguém fardado que stopava o caminho. Que se passa, sr. Agente? Isto é território militar, têm de se afastar, s.f.f. -  Como o recado era evidente e o homem estava ali apenas a cumprir o seu papel  & até falou assim com um ar de enfado desamparado e
evidentemente tínhamos mais que fazer, demos a volta e regressámos às nossas prazenteiras deambulações pelo campo, com a carroça quando muito talvez a 5 Km à hora e o GPS na intuição do burro.



* estava eu nestes preparos, quando recebo um email da “Autoridade Tributária e Aduaneira”, com o “assunto: Campanha para a prevenção de incêndios”, dirigido a mim próprio como:  “ Ex.mo(a) Sr(a) “.

1º fiquei estupefacto pelo facto de me sentir tratado como gente neste país, depois mais assente na coisa, deduzi humildemente que esta comunicação tinha sido eventualmente lida por milhares de portugueses que possuam email e tiveram pachorra para tal. Numa leitura oblíqua  senti-me claramente intimidado e olhei com carinho os pinheiros do meu vizinho que felizmente  alongam generosamente  os seus  belos ramos para a minha varanda. Olhei para eles com a gratidão que naturalmente me merecem e tácitamente jurei-lhes a minha proteção. Depois : no comments.



( Rascunho Nº 18 )