José Alberto Mar. Com tecnologia do Blogger.

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20.3.20

Novos Tempos

Título:  O 3º Olho. Autor: J.A.M. - 2020






































As imagens tocam-me mas não sei
se vejouço ou então
só em parte estarei vivo.

O ar habita-nos por dentro e por fora.
Ao sabor de fronteiras incertas. Às vezes
outro sol nasce em nós. O tempo
separa as escolhas.

E então lembro-me:
as flores em Maio dão-me para olhar.


19.2.20

Rio Minho. Foto: J. A. M. 


quero ficar assim nu de fora para
dentro, até ao vazio transparente
de alguém que o deixou de ser para
ser ponte para tudo o que é
paz, serenidade viva e mansa alegria.


( J. A. M. - séc. XX)

16.2.20

~ 7º pedaço de mais um diário perdido ~

Desenho. Autor: J. A. M. - Anos 80
























O agora, estanca, parte-se, abre-se como um fruto a seu tempo, para que o tempo seja outro e haja uma viagem à-volta.
Regressarei.
Entretanto: vivi com tribos e tribos, muitos nomes e culturas, deixei-me atravessar por N mundos diferentes, vi o geral e o particular nos pormenores e em nenhum lugar fui estrangeiro.


- Há em nós algo de tudo.



( África. Senegal.2019)

13.2.20

retrospetivas

Pintura: J. A. M. 



















1

Por vezes, alguém põe 1 dedo na ferida.
Quero dizer - alguém acorda a sombra geral dos seus nomes
e os nomes mergulham nos ritmos do sangue
e logo as mãos crescem para os lugares
e os lugares crescem com elas
e depois, fica tudo mais Alto.
Há quem passe, olhe de lado e continue a sua vida.
Outros há que passam e se detêm
por um pormenor mais chamativo.

2

Claro que todos os lados, todos os nomes
são pretextos. E os lugares também.
Nascemos e morremos por uma graça indomável
perdida no tempo. Andamos às voltas disto tudo
enquanto por dentro acordam & adormecem
as sementes povoadas pelos estranhos frutos
de uma sede sem fim.

3

Vozes e vozes que cantam a Vida e
o exemplo de milhares de sóis
mesmo sabendo-se que para outros olhares
há um abismo memorial nas cabeças
uma outra idade outra boca menos cercada
pelos dons dos dias na transformação dos corpos.



- J. A. M. in, “A Primeira Imagem”, Ed. Sol XXI, Lisboa, 1998 -


2.2.20

cem título(s)

Trabalho-visual. Autor: J. A. M. 

















Sei como os universos estão cheios de estrelas
de ouro breve nas suas viagens
e um coração de ouro nunca tem preço
(eu sei) como o teu sol também é o meu
também sei que por onde caminhas
é o (mesmo) lado só teu 
do lado que também é o meu.



 P.S. poema dedicado à minha filha, D. I.


Mindelo. Ilha de São Vicente. Cabo Verde. 11-12-2019

22.1.20

~ 6º pedaço de mais um diário perdido ~

da Ciência legalizada dos Quadrados. Obra de: J. A. M. 


















já há uns bons tempos que faço diariamente, com base nos trâmites das meditações ocidentais, dado que sou do género Oblomov (1) (as meditações orientais são demasiado exigentes...)  uma pesquisa mui atenta ao meu umbigo.

Como se se tratasse de um curioso olho sem alguma função à vista desarmada, ou o eventual início de uma espiral galáctica ou qualquer outro inopinável círculo vulgar, como se houvesse algo que pudesse ser vulgar nesta Vida...


Nestas vãs deambulações, encontro paredes pedras real+mente duras & a minha picareta é sempre tão frágil tão frágeis estas mãos sementes de asas, mas às vezes como que por acaso

surgem horizontes desamparados, e dou por mim noutra linha do tempo, isto é, re/paro que o desamparo é apenas meu e digamos assim, para finalizar por repentina preguiça este desabafo, creio bem que há coisinhas inverbais. Como se a língua, se enrolasse para dentro em onda repentinamente rebelde e ficasse ofuscada perante um inesperado diamante em visita, vindo sabe-se lá de onde? Cada vez que o vislumbro fico tão deslumbrado que,,,isto é, apago-me e demoro acender-me.


-  Conhece as ciências do fogo? Desse lamento do seu ser profundo, esse queixume pleno de liberdade, que o convida a morrer-se e a procurar-se de novo?



(1) “(…) o mais conhecido romance do escritor russo Ivan Goncharov, publicado pela primeira vez em 1859.(…)  Oblomov é um jovem e generoso nobre incapaz de tomar decisões importantes ou empreender quaisquer ações significativa(…)” - in, Wikipédia -


(…)

J.A.M.

Data:?

Rascunho Nº 59

19.1.20

MORABEZA (*)

Alex da Silva e uma das suas Obras
( foto retirada da Net, sem autoria visível)






















+ uma vez aconteceram-me as estrelas
a descerem sobre algo que não sei em mim
mas sei que são os meus olhos
que as chamaram sem eu dar portal
pois o que sinto é sempre maior
daquilo que sou:

Gaiola aberta à luz.


Felizmente 1 dia, deixei voar toda a minha passarada
e hoje, eles lá de longe sei lá de onde
não esqueceram o meu gesto
que afinal não foi só meu.


Mindelo (Ilha de São Vicente. Cabo Verde)18-12-2019.


* Significa «amabilidade; afabilidade» [Dicionário da Língua Portuguesa 2008, da Porto Editora].
O Dicionário Eletrônico Houaiss também regista morabeza e diz que este substantivo feminino é um regionalismo de Cabo Verde (ilha Brava), tratando-se de «qualidade ou característica de quem é amável, atencioso, delicado; afabilidade, gentileza», a exemplo de «m[orabeza] nas relações interpessoais».

Nota: Poema dedicado ao pintor Alex da Silva , falecido a 30-12-2019, Mindelo, Cabo Verde; Gedicht opgedragen aan de schilder Alex da Silva, die stierf op 30-12-2019, Mindelo (Cape Green).



18.1.20

~ 5º pedaço de mais um diário perdido ~

Obra visual. J. A.M.

















(…) aconteceu-me algures, num país distante, sem tempos nem espaços uma luz 1ª, e sem dar tempo ao tempo muitas luzes explodiram em uníssono e só não caí ali redondo talvez por um acaso que julgo agora ter sido fortuito.


Era a simples beleza de um areal prateado sem fim, ao lado o mar evidentemente, e eu ou alguém na altura por mim (dado que cada um de nós é sempre muitos), passeava sem qualquer destino entre os despojos das ondas à frente dos olhos e o soletrar dos seus sons quando se fingiam enfim de mortas. Deambulava por ali ciente da íntima felicidade que vivia sem dar por tal e a incerta altura, o sol que me acompanhava desde o início desbotou-se pareceu retirar-se e eu senti-me sozinho sem

e foi então, regressando aos milagres da luz (pois hoje sei que tudo é Luz), que olhei mui convictamente para o céu no lugar onde o sol se tinha ausentado e pedi convictamente que voltasse para a companhia que me faltava. Repentinamente surgiu invadindo-me de calor, das raízes dos cabelos até às plantas dos pés e … fiquei repentinamente surpreendido pelo meu próprio espanto!


e foi a partir deste momento que nunca mais duvidei de Deus. Um deus, muito longe de todas as cruéis religiões que andam por aí a fazerem dos homens escravos.

 (…)

Data = ?

Rascunho nº 58

13.1.20

Mundos Quânticos

Trabalho-Visual baseado no Experimento Científico da “ Dupla Fenda” ( partícula e onda), realizado por Thomas Young. 100X100 cm. Autor: J. A. M. ( 2017)

~~~

COMO VOCÊ CRIA A SUA REALIDADE DENTRO DA MATRIZ:

 https://youtu.be/Drc-F4_2VLM


12.1.20

~ 4º pedaço de mais um diário perdido ~

Trabalho visual. J. A. M.



















Olho-te agora de longe. O teu rosto enaltece a luz que ainda cai entre os muitos ramos das enormes árvores à-volta e ao mesmo tempo é uma luz que se procura saída de dentro de ti. Com um sorriso, ao de leve apenas, como 1 pássaro suave que já passou. Entre ti & o momento, entre ti e a tua discreta doação ao que no fundo já sabes ser, reparei agora nesse momento fugaz entre o marulhar dos peixes na água e os teus pés à-beira descalços e acesos no meio da fogueira que por ora quero imaginar.


Por detrás de ti havia plantas e flores despidas ao sol com aromas em brandas chamas, havia borboletas amarillas lúcidas e loucas sem dono agrupadas às voltas, e foi então que eu vi que eras uma pequena deusa ali descida, sem testemunhas, e prometi voltar sem o saber.


( Rascunho Nº 38)

8.1.20

(Enxerto do livro inédito “Diário de 3 Gatos”)

Cartaz: J. A. M. 
























(…) Então hoje ensinei os meus discípulos a plantar 1 carvalho (1). No novo quintal, que aluguei à Junta de Freguesia aqui da zona, vá lá não foram alarves no negócio até não pareciam políticos (depois, dá-nos umas flores para a festa cá da Terra. – Está bem!).

Não chamei as crianças (2) nem lhes dei secas de aulas teóricas & essas outras tretas que por aí andam nos ensinos oficiais deste ofuscado país, peguei na pequena haste da futura árvore, construí um buraco a condizer e eles aconteceram ali a olhar para a circunstância. Depois fui ao poço com um cântaro e despejei a água que julguei necessária à firmeza da terra abraçada às raízes do novo hospede. Olhei para esta obra na companhia de 4 olhos debruçados, atentos, até (julguei) admirados e pensativos, quem o haveria de dizer? tratando-se de gatos.
Confirmado a facto em si, in loco, 1 dia destes haverá um pouco + de oxigénio para o Planeta, bem-precisa! há por aí, pelo Mundo a fora, pessoal a fazer o mesmo, graças a Deus! nem tudo está perdido, penso às vezes em momentos de um inesperado fervor & uma boa dose de esperança.

Enquanto agora os meninos, refastelados na almofada de flores exóticas, de onde várias cores se desprendem, olham para mim como se eu fosse um ser estranho (…)


Francamente... 



J.A.M.

(2018 ? - Rascunho Nº  17  )


(1) A escolha da futura árvore, foi-me fácil. No geral, vivo em Portugal.  “A maioria das florestas autóctones do continente de Portugal (as que existiam antes da destruição provocada pelas actividades de alguns humanos) eram carvalhais. Daí a razão de existirem tantas terras com o nome de Carvalho(a), Carvalhal(ais), Carvalhosa, Carvalhedo(a), Carvalheiro(a), Carvalhinho(a), Carvalhido, e mais especificamente Cercal e Cerqueira que são arvoredos de Carvalhos-Cerquinhos (Quercus faginea subsp. broteroi). O seu epíteto subespecífico é dedicado ao grande botânico português Félix de Avelar Brotero (1744-1828), autor da Flora Lusitanica e, mais tarde, da Phitographia Lusitaniae.” ( tradução livre).
Em celta significa quer + kuez " árvore nobre ".  

(2) trata-se de um casal de gatos com cerca de 8 meses.

5.1.20

( notícia do dia )



" Hoje a Terra atinge a sua velocidade máxima: 110.700 Km/h.Segure-se porque viaja a mais de 110 mil quilómetros por hora.

Na verdade, apesar de estar sentado numa cadeira neste momento, está a “andar” a uma velocidade infernal.”


(P.S. utilize o seu cinto de segurança, + conveniente).

Cartaz. J. A. M.




















pplwqre: https://pplware.sapo.pt/ciencia/hoje-a-terra-atinge-a-sua-velocidade-maxima-110-700-km-h/

~ Encontros ao Deus-Dará ~

Trabalho dos Anos/ 80 . J. A. M. 




















primeiro foi uma sensação a veludo nas mãos, a carne à flor da pele era  macia de um modo tão suave e a pedir só mansidão e elas, as mãos, transcorriam bêbedas com todos os seus 10 dedos nas polpas sensíveis cada vez eram mais e eu lá no fundo, no final da sensação, deixava-me navegar com toda a preguiça esboçada do mundo, por este mar de novidades que aquele corpo me emprestava no silêncio ofegante da noite.

E ela estava deitada, enlevada no seu sonho de ser mulher para as minhas mãos e eu sentia-a a crescer nos ritmos da respiração, e de um lado e do outro, ambos éramos mais próximos, como se houvesse uma indeterminada luz pelo meio, que tínhamos de possuir precisamente ao mesmo tempo.
Tudo ilusão. E, no entanto, não era. Eu estava ali, ela também, éramos 2 corpos com as portas escancaradas ao Mundo. A aragem das mãos esvoaçando sobre a pele de veludo, era o que sobrava do silêncio de chumbo, onde os nossos corpos jaziam. Havia entre nós, um nó inteiramente aceso por dentro, onde as línguas mais aprumadas já não dizem palavras. Os gestos criavam outros mundos, onde só nós cabíamos, onde só nós éramos perfeitos  espera de o sermos.


José Alberto Mar. Brasil.

(in, " Gazeta de Poesia Inédita" 4-Jan-2020:

2.1.20

~ 3º pedaço de mais um diário perdido ~

Série: pequenas sabedorias. Autor: J. A. M. 
























Depois de viajar por muitos universos, as asas descem
mais cegas
mais frágeis
apenas dois olhos na luz possível.


Por aqui, neste mundo, à minha volta: 2 universos, apenas: o Universo do Amor e o Universo do Medo. Cada um com inúmeras portas e janelas e nomes encobertos e descobertos por onde se entra e sai e se volta a entrar e a sair. Quase eternamente. O círculo ou a espiral, a sobrevivência do macaco nas ilustrações da luz ou a luz derramada em forma de cruz. Tudo inscrito, tudo escrito em todos os lados, dentro das cabeças, na imensa água do interior do corpo, nas paredes levantadas, por fora & por dentro, nas alegrias e na dor.

Talvez a propósito, à dias, numa repentina surpresa com o seu quê de inopinada iluminação, apercebi-me que a morte não acontece só aos outros. Eu também vou morrer?
após N deambulações entre vários registos de quem pensa que pensa e tudo neste regaço tem 1 tom incómodo e em vão, claro que não cheguei a lado algum, digamos Maior. Mas, confesso, fiquei abalado. Eu já “sabia isto”, mas um outro de mim também me disse que não era bem “isto” o que eu sabia. Era algo mais ao longe, uma qualquer coisa esfumada entre os “ trabalhos e os dias ” (1) e o simples medo de tal, digamos assim, efetiva constatação.

Regressei pois aos universos dos Amores e dos Medos. Lembrei-me das inúmeras cabeças metafóricas e mortas dos jardins públicos do meu país (2) e coloquei a minha de lado, por simples resguardo. De coração aberto revi o que sinto ter vivido ao longo da vida e encontrei ilhas, memórias, abreviações, pedaços, momentos onde houve algo maior, outros assim-assim e ainda outros, nem-por-isso.
Tenho esta idade, varia todos os dias, 18, 25, 52, 68, 1000, 10.000 e todo o presente à minha frente. Vou começar agora a cumprir realmente o meu destino.


(1)  Poema épico de Hesíodo; 
(2) representação evidente da sobrevalorização ocidental do  "mundo da Razão ". E, por este caminho veja-se o "estado das coisas".

NOTA pessoal: tenho a ligeira impressão, que a maioria das pessoas, vivem o dia-à-dia como se fossem "eternas", isto é, não pensam - de vez em quando -  naturalmente, que 1 dia irão morrer. Como o povo diz: "esta Vida são 2 dias". Talvez, algumas vezes 3.
Um estudo +/- recente, declarou que neste mundo, Um Milhão de pessoas deita-se e acorda morto.

(data=?)

29.12.19

ainda: Cabo Verde

Escultura pendurada numa parede da " Casa Café Mindelo" . Foto: J. A. M.
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Oh! Facho do achar
Se perseguir o não achado
É mesmo total,
Aparelha-te e sê acabado
Apressa-te e sê mortal.

Numa padiola, a vida, o poeta
E os versos insossos e sem lado.
Dá-lhes fogo de amassar.


( in, "Gaveta Branca"- A Luz e a Voz. Poeta Kaká Barbosa.)

24.12.19

~ 2º pedaço de mais um diário perdido ~



Djeu ou o Ilhéu dos Pássaros. Mindelo. Cabo Verde. Foto: J. A. M. 

















Alguém disse já não recordo, pois foi num campo de batalha e o ribombar das bombas e dos seus ecos na altura, faziam-nos surdos. A outros, faziam-nos cegos. A outros ainda, faziam-nos mortos.

Mas a frase em questão, no meio daquele inferno encantou-me o lugar e por momentos caí num silêncio sem tempo, que me trouxe a casa de meus pais, longe muito longe, onde havia um jardim.

E a frase era assim: não corras atrás das borboletas, cuida antes das tuas flores que elas virão até ti (1).

Ainda hoje, passados séculos, por vezes em dias ou noites em que tudo parece estranhamente desolador, me acontecem as imagens bem nítidas que esta frase levanta à frente do meu olhar.
E então, algo em mim se transforma e tudo à minha volta também. E, um sorriso leve e doce aflora por dentro.


(1) frase atribuída, a D. Elhers, em tradução livre.


(raskunho Nº 7)

Dez-2019

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TABERNA À BEIRA-MAR



Uma luzinha distante
E um farol cuspindo luz
Na cara negra da noite

Tudo é salgado e saudoso 

Ventos com ondas às costas
Fazem tremer a taberna
Que é um navio ancorado.

Amor intenso e brutal  
Entre navalhas abertas
E o desleixo
De uma rameira entre os braços.

Andam no ar desesperos
Em densos rolos de fumo.

Garrafas, copos, garrafas...
- Ai! A sede do marinheiro…

Tatuagens picando a pele
Gritam a dor e a bravura
Das aventuras nos portos

Gente de todas as raças,
Gente sem pátria e sem nome

- Apenas gente do mar
Com voz de sal e de vento
E barcos nos olhos líquidos.
Entram o Tédio e a Saudade
Mordendo velhos cachimbos…
Entram e saem depois
Levando, aos tombos, um bêbedo.

Baralhos, mesas e bancos
Garrafas, copos, garrafas
E a cara do taberneiro

Instigam a velhas revoltas
E tudo cheio de vícios,
E tudo cheio de sono
E tudo cheio de mar!


Aguinaldo Fonseca.
( Mindelo, 22 de Setembro de 1922 - Lisboa24 de Janeiro de 2014)