José Alberto Mar. Com tecnologia do Blogger.

23.2.24

A vida talvez seja atravessar pontes

Pintura. J. A. M.

A vida talvez seja atravessar pontes. Entretanto viver
os rios que vagueiam por dentro e por fora de nós.
Escurecer com as noites.
Iluminarmo-nos com os dias.
Por fora e por dentro de nós.


( J. A.M.)

20.2.24

Pintura ( 1978?) J. A. M.

enlouqueci devagar como as plantas
para as suas flores


( J. A. M.)

14.2.24

Muitos Sóis

Pintura.  J. A. M.

 

Que hei-de eu fazer senão sonhar um outro alfabeto, uma outra luz dentro das palavras soltando-se para fora?
Lembro-me da infância, dos íngremes ritmos que atravessavam o meu corpo das novidades a cada momento. É daí que lavro a sementeira que agora as mãos permitem.
Há sempre outras ocorrências, outras viagens, outros modos de sublevar as primeiras inocências.
Tudo acaba por coincidir na mesma aventura.
O rigor das diferenças são aparências soletradas só em si. Pois os círculos e as espirais têm sempre a sombra que nos transporta.
A luz, a derradeira luz, bate de lado, bate e bate, para que tudo pareça um simples sortilégio.
Mas não é, não.


( J.A.M.)

4.2.24

INTRODUÇÃO À TELEPATIA

Pintura. J. A. M.

 

Algures pertenço ao silêncio
enquanto suspendo da boca
o fio liso das montanhas, recortadas
junto às luas.
 
 
Mansas mulheres
devoram-me as esquinas às palavras
passeiam-se em línguas estrangeiras
estão atentas às suas imagens.
 
 
Hoje ocupo-me dos pequenos milagres
da linguagem. Fui esquimó europeu árabe
E em todos tive a mesma voraz atenção
a mesma língua muda transparente
em cada momento senti
o vaivém dos corações sem tempo.
 
 
Encontrei poetas pessoas sentadas
cheias, outras a dormirem cansadas
da eternidade.
Em cada um vi a idade nua, fechada
por uma obra silente nos olhos.
Em cada língua soube falar calado
e não houve alguém voltado de repente
olhando-me atónito
como se estivéssemos colocados fora
do lugar.
 
 
Por isso, toco o silêncio. Muitas vezes.
Queimo-me nas vertigens dos gestos falados
querendo prolongar este talento tão ardente
e tão natural
a espera fulminada pelos dons das mulheres
intuitivas
pois é delas esta arte adivinhatória, este estilo
totalmente original
abandonando os campos absurdos da mente.
 
 
As paisagens iniciais atam e desatam-me
o corpo. Os silêncios vivem de um veneno puro
no éter, desdobram a luz das estrelas
por onde outros códigos cantam os corpos
comunicantes
em claros encontros fora das palavras.



( in, O Triângulo de Ouro. J. A. M.)