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| Pintura. J. A. M. |
O silêncio doucement
equilibrado na noite suspensa. Um cão ladra. Rasgando a pauta das parcas luzes
que descem. Fecho as portas e as janelas do meu corpo. A escuridão fica agora inteira.
Mais 1 copo,
s.f.f.
E o copo alumia-se
tingido de sangue. Pensei: eu sou aquele que semeei videiras pelos
campos. Também pensei: sou aquele que
não aguardo a colheita nem mesmo a visão das uvas sob os raios de sol que as amadurece.
Mais 1 copo, se
faz o favor.
Olho pela janela. Ao
longe as nuvens sob a lua C.C. parecem dançar comigo. Cresce um intervalo prolongado.
Mais 1 copo, se
faz o favor.
Há que ser
respeitoso com quem nos serve.
E o Sr. António desceu as
escadas para a adega e mais uma vez regressou sob a luz frouxa do lugar e com
toda a integridade do acto, deixou escorrer o vinho tinto para o copo aberto e
solitário.
Depois foi. Ainda
vi a sua silhueta estampada na obscuridade da luz na parede. Logo debrucei-me
para a mesa e a mão levantou-se e desceu para o copo.
Lembrei-me que não
estava só.
Por algo que tem
haver com associações, lembrei-me da humanidade no geral e em particular, mas
tais deambulações não me levaram longe. A humanidade é sempre algo longínquo.
As pessoas, não. Olhei à volta. Seres humanos solitários como eu, ocupavam os
lugares vazios do tasco. Alguns falavam, outros escutavam, outros ainda
pareciam ter-se ausentado dos seus corpos. Senti como todos tínhamos um destino
avulso que se estava a cumprir. Um destino, entre as luzes e as sombras,
encontros e desencontros, amores, paixões, traições, arrependimentos, louvores,
êxtases e os caminhos por montanhas e vales que acontecem a todos.
Re+parei que podia
regressar a esses momentos, encarna-los por dentro e ver como tinham sido
apenas pontes perenes, mutações de uma pedra que sonhava ser diamante e rolava
entre as margens de um rio para o eterno destinatário mar.
Foi preciso
atravessar fronteiras, esquecer os mapas, sentir e seguir o fluxo verdadeiro
dos territórios que não nos esquecem. Por fim, ser humilde como as plantas, as
flores, os meus gatos, caminhar por onde as luzes me conduzem.
Entretanto o copo
tinha perdido a sua alma, apenas um fundo escuro onde as poucas luzes do lugar
ainda existiam.
Só mais um copo, por
favor.