José Alberto Mar. Com tecnologia do Blogger.

29.9.25

Exposição de Pintura

CARTAZ. C.M.P.

 TRÍPTICO   ÀS   IMAGENS   NUAS

 

1 - Por vezes, alguém põe um dedo na ferida. Quero dizer: alguém acorda a sombra geral dos seus nomes e os nomes mergulham nos ritmos do sangue e logo as mãos crescem para os lugares e os lugares crescem com elas e tudo fica mais Alto. 
Há quem passe, olhe de lado e continue a sua vida. Outros há, que passam, e se detêm por um pormenor mais chamativo.

 

2 - Claro que todos os lados, todos os nomes são pretextos e os lugares também. Nascemos e morremos por uma graça indomável perdida no tempo. Andamos às voltas disto tudo enquanto por dentro acordam e adormecem as sementes povoadas pelos estranhos frutos de uma sede sem fim.

 

3 - Vozes e imagens que cantam a Vida e o exemplo dos milhares de sóis, mesmo sabendo-se que para outros olhares, há um abismo memorial nas cabeças uma outra idade outra boca menos cercada pelos dons dos dias na transformação dos corpos.



( in, A PRIMEIRA IMAGEM.1998J. A. M.)

 

19.9.25

Só mais 1 copo

Pintura. J. A. M. 

 
O silêncio doucement equilibrado na noite suspensa. Um cão ladra. Rasgando a pauta das parcas luzes que descem. Fecho as portas e as janelas do meu corpo. A escuridão fica agora inteira.
Mais 1 copo, s.f.f.
E o copo alumia-se tingido de sangue. Pensei: eu sou aquele que semeei videiras pelos campos.  Também pensei: sou aquele que não aguardo a colheita nem mesmo a visão das uvas sob os raios de sol que as amadurece.
Mais 1 copo, se faz o favor.
Olho pela janela. Ao longe as nuvens sob a lua C.C. parecem dançar comigo. Cresce um intervalo prolongado.
 
Mais 1 copo, se faz o favor.
Há que ser respeitoso com quem nos serve.
E o Sr. António desceu as escadas para a adega e mais uma vez regressou sob a luz frouxa do lugar e com toda a integridade do acto, deixou escorrer o vinho tinto para o copo aberto e solitário.
Depois foi. Ainda vi a sua silhueta estampada na obscuridade da luz na parede. Logo debrucei-me para a mesa e a mão levantou-se e desceu para o copo.
 
Lembrei-me que não estava só.
Por algo que tem haver com associações, lembrei-me da humanidade no geral e em particular, mas tais deambulações não me levaram longe. A humanidade é sempre algo longínquo. As pessoas, não. Olhei à volta. Seres humanos solitários como eu, ocupavam os lugares vazios do tasco. Alguns falavam, outros escutavam, outros ainda pareciam ter-se ausentado dos seus corpos. Senti como todos tínhamos um destino avulso que se estava a cumprir. Um destino, entre as luzes e as sombras, encontros e desencontros, amores, paixões, traições, arrependimentos, louvores, êxtases e os caminhos por montanhas e vales que acontecem a todos.
 
Re+parei que podia regressar a esses momentos, encarna-los por dentro e ver como tinham sido apenas pontes perenes, mutações de uma pedra que sonhava ser diamante e rolava entre as margens de um rio para o eterno destinatário mar.
Foi preciso atravessar fronteiras, esquecer os mapas, sentir e seguir o fluxo verdadeiro dos territórios que não nos esquecem. Por fim, ser humilde como as plantas, as flores, os meus gatos, caminhar por onde as luzes me conduzem.
Entretanto o copo tinha perdido a sua alma, apenas um fundo escuro onde as poucas luzes do lugar ainda existiam.
Só mais um copo, por favor.