José Alberto Mar. Com tecnologia do Blogger.

30.4.25

Meiri

Imagem. J. A. M.

 
     Os lençóis negros da noite desciam, tombavam, adormeciam colados uns aos outros, como as folhas das carnaubeiras * juntas secas no chão.

    Depois de várias voltas por N ruas obscuras da cidade pareceu-me que era por aquelas bandas que a festa começava a fervilhar. Num passeio de uma rua desamparada, encontrei um banco à minha espera e pedi mesmo ali à Sr.ª da roulotte uma cerveja bem gelada.          Recostei-me, costas com parede e vice-versa, e pus-me a pastar vacarosamente  o olhar à volta:  havia de tudo o que era gente, jovens em grupos soltos e felizmente assim, pessoas solitárias, alguns com ar de quem procura desinspiradamente libertarem-se daquilo, outros já mais ancorados nas suas derradeiras sortes, havia casais apaixonados que nem pássaros azurumbados, havia também mulheres de todas as cores e as mais belas prendiam-me o olhar por mais tempo, e logo depois, desapareciam pelas portas dos vários bares de onde se soltavam canções às molhadas e, de quando em quando, tudo aquilo fundia-se no fundo mais profundo do meu ser e dava-me sede para mais uma cerveja.

    Por cima, a Grandiosa escuridão universal salpicada de estrelas e uma clara sensação de vastidão completamente alheada de tudo.

   A incerta altura, uma menina sozinha por fora e por dentro aproximou-se de mim, de cerveja na mão e sentou-se a meu lado. Depois continuou calada, ancorada e eu também não de cerveja na mão. Encostou a sua tristeza desarmada no meu ombro abrigada e eu comecei a cantar. As minhas canções eram peixes criados ali, para o seu mar. E sem darmos por isso, pousámos os olhos nos olhos e começámos a beijar-nos. Já o seu fundo sereno tinha um outro olhar. E uma paixão qualquer aconteceu naquele lugar.

      Claro que o dia nasceu sem nos avisar



*  Variedade de palmeira, com caraterísticas singulares, também conhecida pelo povo como a “árvore da vida” e considerada o símbolo do Estado do Ceará.


(Jacaúna. Estado do Cea. Brasil




J. A. M.

Os Poderes do Coração



Trabalho baseado em estudos científicos, no campo da neurologia e neurocardiologia. O coração possui um campo complexo de células neurológicas. O campo magnético deste, é muito superior ao do cérebro.*

O vídeo é composto por duas partes:
1ª há um feixe de luz que conecta o coração do artista ( autor) com o Universo, num movimento de emissão e recepção, enfatizando a natural ligação do ser humano com o Todo; 2ª (Início a 1:08 tempo). Sobre o fundo de um trabalho do autor, intitulado "De Coração na Cabeça", existe uma chama acesa ( o fogo como símbolo regenerador e purificador), e a banda sonoro estabelece uma ligação com a Natureza (onde os seres humanos estão naturalmente incluídos), através de sons. * Ilações retiradas a partir do "HeartMath Institute", U.S.A.

27.4.25

Alguém passeia-se porque deu para tal

Parque Natural Topes de Collantes (Cuba). Foto : J. A. M.

 

Alguém passeia-se algures por caminhos e paisagens onde há pedras pelo chão e acontece-lhe curvar-se de repente, por algo que o chama sem dar-bem-por-isso e há um diamante entre as suas mãos, o olhar turva-se pelo brilho que o sol, atento a tudo onde há vida, lhe oferece 
no mesmo instante e depois há quem veja logo ali um presente, ou há quem não dê conta do vislumbre que lhe aconteceu e continue apegado aos seus hábitos, atirando o pequeno seixo para as águas de  rio que desliza por perto no seu ocaso indiferente a tudo isto.
Os hábitos escravizam, tornam-nos cegos.
Todos os dias acontecem coisas assim, parecem banais porque são diárias, mas não o são, não. Nada é banal nesta vida que nos está acontecendo. E por aqui os diamantes não têm quaisquer preços, são iluminadas fontes metafóricas, criadas pela infindável sede que habita os profundos lençóis da Terra. E das pessoas, também.


- Quanto demora uma idade a ser luz?


(O OURO BREVE DOS DIAS, Livro de contos. Ed. do autor. J. A. M. 2021)


26.4.25

Premissas para um poema

 São Tomé e Príncipe. Foto: J. A.M.

 

- Melhor que mencionar é ser borboleta à volta da lâmpada.


- Transgredir o verbo é ofício de pescador.


- Não preciso de ninguém para ser azul.
  Por vezes, dourado.


- As águas dos rios convidam ao silêncio.
  As de dentro, ainda mais.


- Uma pedra, uma flor ou uma ave têm o mesmo prodígio
   nos olhos.
  Nada existe se comparado.
  Nada existe separado.


- Nas pequenas coisas do mundo há discretos sussurros
  de Deus.
  Quando o silêncio liberta as pautas.


- Exaltar os dias e as noites é o glorioso ofício dos loucos. 



( J. A. M.)

 

poema consentido

Imagem trabalhada ~ J. A. M. 

 
eu vim de longe, de muito longe
do pó das estrelas, do vazio dos astros
do silêncio infinito
das longínquas alianças
da Fonte.
 
eu vim de longe
da cegueira das pedras, do fogo
transmutado nas flores
das cavernas escuras
onde desenhei o queixume da ausência
desse misterioso Ser abismado em mim.

 

( J.A. M.)

Deambulações à volta do "vinum"

Autor: J. A. M.

O intenso aroma da esteva com o seu sangue ou resina onde as borboletas se embriagam. Desde o sul de França, alongam-se até ás montanhas e vales do Douro, onde as suas flores com 5 pétalas outras menos outras mais brancas como as pombas da paz e depois dois pontos vermelhos de sangue pousado em cada uma e um centro amarelo a enaltecer o sol.


É no Verão que o seu ládano se revela
na elegância das hastes a vertical
tradição da Natureza por dentro
e por fim “algo especiado” onde o
caráter é ser quem vai sendo
enquanto é e deixa de ser.


 

NOTA: Esteva. Maduro Tinto. 13% vol./56010070013327/PART OF: SOGRAPE/5501001.


 ( J. A. M. )

25.4.25

iniciações menores

Foto ( Norte de Portugal) : J. A. M.

  
Eis os sinais da espera. Enquanto já acontecem.
Como a flor de dentro para fora saboreia as novidades de outro mundo, como a violência de um ser ao fissurar um outro estar, como o grito que foi cascata de lágrimas silentes gotas de um mar de sal e sol encoberto num rosto guardado pelos espelhos de Narciso. Como se houvesse um som de porta que se vai abrir e, não há porta nem qualquer abrigo.
 
Pois, eis a ponte.
A travessia. Do outro lado as paisagens são testemunhas de alguém que gritou no meio dessa noite desconhecida, a lanugem de quem sofreu de solidão e descompasso.
E o coração sente o apelo a chama que repentinamente é visita de novo.
 
O esquecimento persiste ou a indecisão cai como 1 raio na cabeça ou então, tu decides: vou atravessar a ponte.
No casulo se germinam os sonhos, as douradas forças do sOl os parentes desígnios sonoros da Fonte.
 
É por dentro que tudo se inicia.
Em Tudo. A Natureza esse espelho
de nós, espelho de água
para onde se entra e nunca mais
há regresso. Nunca mais
a escuridão é obreira de si
e a luz expande-se até onde és:
andarilho de uma voz incógnita
e o corpo curva-se ao levantar-se
e duas feridas iniciam o seu labor
cada uma no seu lugar conjunto
no ainda longínquo lugar das costas.
 
 
(J. A. M. ~ 3º rascunho.18-4-25)

 


24.4.25

Poema em Saldo Nº25

Foto: J. A. M.


uma data que regressa sempre
transparente à cabeça
um sino pendular nas cavernas do corpo
e então escutá-lo é abrir as potências
do sangue, dos pés até à raiz
dos cabelos, deixar crescer
a vida circular dos dias
pelo silêncio poderoso
se fundamenta um olhar
um sonho, uma estátua invisível
dentro da memória
acorda-se o esquecimento
mantendo a respiração de um ps
entre muitos e muitos horizontes.

 

( J. A. M.  ~ 1980. Alterado: 2025)


Link:  https://youtu.be/CbVQV1XNOCY?si=WhVwoSXv4i8dLezq

23.4.25

houve 1 dia que cortei a cabeça

Foto baseada em escultura de artesão da Turquia. J. A. M.

 

      houve 1 dia que cortei a cabeça, falo metaforicamente, coloquei-a por baixo do braço mais disponível na altura, e fui passear-me. Não havia sangue, nem dramatismos. Apenas uma imagem deambulando pelas ruas sempre improváveis da vida, os olhares interrogados dos mortos, longinquamente o sopro subtil de um ato em princípio original nos catálogos gerais, mas claramente – a meu ver – perfeitamente integrado nas coisas real+mente vivas do mundo, isto é, da Natureza.

Nunca mais voltei atrás.

Aos poucos a maçada da posição resolveu-se per si tendo a cabeça entrado paulatinamente para dentro do corpo e indo posicionar-se naturalmente no oceano das infindáveis células  que ainda julgo ter.

     Deixei-me da ciência das máscaras. Hoje ando por aqui ou por ali ou por além, e há uma clareza consentânea e unânime, nos meus destinos.


20.4.25

o ar dentro das gaiolas está engaiolado?

Máscara & Foto: J. A. M.

 

Há pessoas que têm um poder
um poder silencioso de se misturarem
nas sombras dos outros
Amam naturalmente os dias que passam
fazem da luz que fabricam
a luz que os apaga
pois tudo na vida
é Maior do que eles
assim o veem, assim o vivem.


( J. A. M.)

19.4.25

divaganção

 

Pelourinho de  St.º António de Alcântara. Maranhão. Foto: J. A. M.

     A varanda é branca com o sol estampado ainda por cima e ao lado há o azul~cobalto das águas do mar e do outro, as muitas árvores da Mata Atlântica emaranhadas nos seus verdes a erguerem uma montanha até à beleza de um imenso céu, onde muitos pássaros coloridos até nos sons que espalham me esquecem nos seus voos e só muito tempo depois, felizmente acabo por cair em mim.

     Aqui ao lado, as folhas das palmeiras continuam penteando a aragem que corre atrás de si e por vezes alarga-se até à mesa e leva-me as outras folhas as palavras, o que me importa?

    Na rua as pessoas passeiam-se devagar no meio do tempo. Saboreiam os encontros, param aqui e acolá, trocam poucas frases, poucos gestos, coisas simples, como um sorriso cúmplice na caminhada, já é Tanto!

     1 pescador idoso, de boné ainda vermelho e corpo fechado, está esquecido ou estará a lembrar-se, a olharolhar o mar como se lesse um texto.

     Há em tudo uma paz impossível aproximando-se provavelmente a um sopro distraído de deus no meu olhar.

(Gaibu.Pernambuco. Brasil.J.A.M.) 

18.4.25

msgs do @zécarteiro


 

*https://youtu.be/4xjPODksI08?si=6wKJ_X_PPOJyb-JI

Poema bem noturno

Obra de artista cubano amigo (Habana).Foto: J. A. M.

 

O abelharuco tem um canto inconfundível, companheiro das vinhas dos vinhateiros e suas vindimas no Alentejo onde os horizontes são mais longos. Intimamente ligado à terra e ao saber que dá frutos, calmamente esvoaça entre os chaparros quando lhe dá para tal. O seu estado de genuína maturidade advém da provecta idade da sua espécie, bem vivida ao longo de viagens por Aragonez, Trincadeiro, Syrah e Alicante entre muitos outros destinos. Através dos anos e muitos voos, soube encontrar o equilíbrio concentrado em si próprio, a libertação do seu ser dentro do corpo. O abelharuco destoa perante os seres humanos como alguém de “boca longo”,  prolongando-se sempre e em todos os momentos até um final que também é feliz.



Nota: texto inspirado no rótulo: “ABELHARUCO, vinho regional alentejano, vinho tinto. RED WINE.2023” - UV 0427549; Engarrafado por / Bottled by Bio &Bourbon, SA;Contém Sulfitos.

 


(J. A.M.)

 

15.4.25

amplexus

O MERGULHO . Foto Transformada. J. A. M.

 

O grande Mistério assola
a nossa atual tempestade. Ou seja
quer libertar-nos. Para quem (se) encontra.
 
Duvidar para quê? Se o teu brilho
é fogo ou gelo
e danças entre os espelhos dos deuses.
 
Máscaras, máscaras, templos em si
resguardados
no meio da travessia dos dias
e das noites transfiguradas
nesta saudade sem nomes
Levanta-nos ao de leve os rostos
quando o sopro acontece
quando me abraço a ti
meu irmão, liberta-me desta saudade
deixa que o claro clarão deste reconhecido
encontro, nos encontre.


( J. A. M. )
 


13.4.25

voltarei, não voltarei?

Casa do Sr. Embaixador de S. Tomé e Príncipe. Foto: Cantor Arnaldo

 

       Algures no Brasil cheguei a estar num Paraíso. E regressei. Agora encontrei outro Paraíso. Não sei se volto a voltar.

          Começo por um dos lados: o mar sem fundo, no compasso di roncu di mar (1) a chegar claraMente até mim. Depois há coqueiros esguios, altaneiros nas suas tranquilas danças com a aragem muito ao de leve, afinal quem sopra por lá? E há as tamarineiras com os fortes braços erguidos para os céus e os seus frutos tombados doados à espera de quem lá chegue. Palmeiras com as suas folhas dobradas em devoção às 7 portas que iniciam as noites. Balançam-se também aos sons do mar, da lua que começa a ser maior no céu indefinito do meu olhar.

       Estou nu, sentado com os pés apoiados na varanda azulzíssima e tomara eu estar assim tão nu por dentro. Agora vou colher uma cana de açúcar aqui do meu quintal e depois talvez vá soprá-la numa flauta vazia por aí adiante

      Olhando, escutando, aprendendo a ser mais.

      O pássaro que me visita todos os dias merece agora toda a minha atenção. E ele já está ali, na sua árvore de eleição, misturado com as flores vivas cor-de-laranjas-acesas, pelo meio da folhagem verde escura porque efetivamente já é noite e tudo está demasiado claro para mim.

(Sidády Vêlha. Ilha de Santiago. Cabo Verde)


(1)   “nos sons compassados das ondas do mar”.(crioulo do Sotavento).


(J. A. M.)

11.4.25

msgs do @zécarteiro

Desenho. J. A. M.

1 Mestre Zen e o seu discípulo passeavam algures atravessando a  noite.

O Mestre tinha uma lanterna numa das mãos.

- Mestre - perguntou o discípulo - é verdade que podes ver no escuro?
- Sim, é verdade.
- Então para quê a lanterna?
- Para que os outros não choquem connosco.


8.4.25

PAISAGENS ABERTAS

Foto trabalhada. Autor: J. A. M.

 

Estamos numa viagem aparentemente  longa, “ um homem com pressa é um homem morto “ , eis um ditado destas pessoas apaziguadas entre si deambulando pelo deserto (1) nos seus ritmos naturalmente certos por aqui há tempo para tudo pois tudo é tudo no natural  silêncio cheio de ecos no céu tranquilo e espaçoso nos horizontes eternamente demorados no presente o tal tempo que foi expulso dos dias e das noites daquelas bandas ocidentais por onde desandam  tantos desalmados inocentes & os seus senhores mais desalmados todos  a correrem sozinhos cada um com a sua meta e o descalabro dos seus desígnios impostos e aceites como únicos.

 

 – Mas, quem os convenceu de que sozinhos vão a algum lado?

 

 

(1)   Deserto do Sáara. الصحراء الكبرى


* https://youtu.be/eetjwcRph-w?si=AUYL1wjpPpR1ZyqX


(J. A. M. )

7.4.25

Diário de 3 Gatos

INSTALAÇÃO ARTÍSTICA. Ourique.Santana da Serra. Autor e Foto: J. A. M.

 (folha Nº 13)

(…) Então, hoje ensinei os meus discípulos a plantar 1 carvalho (1 e 2). No novo quintal, que aluguei à Junta de Freguesia aqui da zona, vá lá não foram alarves no negócio até não pareciam políticos (depois, dá-nos umas flores para a festa cá da Terra.  Está bem!).

Não chamei as crianças nem lhes dei secas de aulas teóricas e essas outras tretas que por aí andam nos ensinos oficiais deste ofuscado e bem~dito país, peguei na pequena haste da futura árvoreconstruí um buraco a condizer e eles aconteceram ali a olhar para a circunstância. Depois, fui ao poço com um cântaro e despejei a água que julguei necessária à firmeza da terra abraçada às raízes do novo hospede. Olhei para esta obra na companhia de 4 olhos debruçados, atentos, até vislumbrei como admirados e pensativos, quem o haveria de dizer, tratando-se de gatos.

Confirmado a facto em si, in loco, um dia destes haverá um pouco mais de oxigénio para o Planeta, que bem-precisa! há por aí, pelo Mundo a fora, pessoal a fazer o mesmo, graças a Deus! nem tudo está perdido, penso às vezes em momentos de um inesperado fervor e uma boa dose de subitânea esperança.

Enquanto agora os meninos, refastelados na almofada de flores exóticas, de onde várias cores se desprendem, olham para mim como se eu fosse um ser estranho (…)

 

Francamente... 

 

 

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(1 e 2) A escolha da futura árvore, aconteceu-me facilmente.  No geral, vivo em Portugal.  “A maioria das florestas autóctones do continente de Portugal eram carvalhais. Daí a razão de existirem tantas terras com o nome de Carvalho(a), Carvalhal(ais), Carvalhosa, Carvalhedo(a), Carvalheiro(a), Carvalhinho(a), Carvalhido, e mais especificamente Cercal e Cerqueira que são arvoredos de Carvalhos-Cerquinhos (Quercus faginea subsp. broteroi)." (tradução livre)

Flora Lusitanica é um livro de Félix de Avelar Brotero, com descrições sobre a flora portuguesa, escrito em latim. Obra, publicada em 1804. Tratou-se da primeira obra acerca da flora portuguesa sendo descritas 1885 espécies, muitas delas desconhecidas até então pela ciência, tendo também sido a 1ª que  formulou  uma nomenclatura da  botânica portuguesa.

Nota:. Para os Celtas, especialmente para os druidas tratava-se de uma árvore “sagrada” e há muito a dizer acerca deste assunto, mas por hoje  fico por aqui.

 


( in, Livro inédito do autor:J. A. M.)

3.4.25

MERCADO DE SUCUPIRA

 

Camionete/Restaurante. Mercado de Sucupira. Foto: J. A. M.


     6 horas e tal, as mãos e as moscas e às vezes uma delas está a poisar AGORA…Zás!…apanhei-te…  e depois olho, olho e não vejo nada

     e então, depois de uma noitada em que atravessei vários mundos na Praia (1), já estou no interior de uma antiga camioneta amarela torrada pelo sol transformada em restaurante. Depois de ter aviado uma catxupa(2) num prato de lata redOndo mesmo, sentado numa mesa à porta da dita a colher imagens da gente que vende coisas, que compra algumas dessas coisas e das pessoas que passam de um lado para o outro abrindo naturalmente o ar que as ampara.
    No geral “a coisa está preta”. Depois, levanta-se nas cores das roupas. Dá-me a impressão, ainda sujeita a posterior confirmação, que o vermelho é o eleito. Impõe-se só por si, a seguir há os amarelos e os verdes em N tons. O verde-alface é bem considerado por aqui. O branco, obviamente.
     Uma jovem mulher expõe com 1 só braço suspenso exatamente uma garrafa grande de água gelada e espera alguém que a leve. Tem uma bunda maravilhosa e sei lá porque é que olhei para este caso. Alguém transporta carne de um animal já muito morto numa bacia de plástico cor-de-rosa em cima da cabeça, mas o que eu vejo com estes 2 olhos que a terra há de comer, é uma chusma de moscas tresloucadas com o manjar. Irão pesar as moscas também aquando do negócio ou serão o brinde, com certeza.
Lá ao longe o céu está assim-assim-escurecido, sei lá o que vai acontecer por aqui nunca se sabe e já transpiro bastante, ponho-me nu, da cintura até à cabeça exponho o peito a alma, tudo.
      Passa mesmo à frente do meu nariz uma menina toda sirigaita, vai retocando os cabelos com uma mão distraída e a treinar o gingar das ancas que ainda se estão a abrir às sementes que um dia virão, e lá vai ela muito compenetrada no seu papel de ser gente grande também, à espera de ser amada quando acontecer e será para breve, vê-se. Ali vai um gajo todo inclinado para o rádio aos berros na mão esquerda junto ao ouvido do mesmo lado e é música que não tenho tempo de saber, mas com aquele ar tão feliz é boa de certeza.
     Ainda
 
as eternas mangas, as bananas ao lado juntas ao quilo, maçarocas de milho tenro, galinhas aos saltos, compotas, bolsas de coco e outros objetos decorativos feitos de conchas e dádivas do mar, cestos de folhas de tamareira, sapatos sapatilhas e chinelos para todos os gostos, mandioca, queijos da ilha de Maio, ervas medicinais, garrafas de manecom (3), licores, Tudo… e a evidente e dura realidade da sobrevivência. São as mulheres, sempre rodeadas de bandos de filhos espalhados em brincadeiras por ali, que erguem toda esta trabalheira. Cumprem-na devotadas e depois, ao fim do dia no silêncio pesado da noite instalada, desenlaçam-se, encostam ao de leve a cabeça a uma esperança qualquer que nunca vislumbrei e ficam assim desimportadas engolidas pela escuridão, até que o sono as recolha.
     O papel dos homens por estas bandas, parece-me que é atirarem-se a elas esporradicamente e depois bazam logo na primeira curva do tempo d´encontro às luzinhas do grogu (4) ou desenrascam mais um poiso temporário algures numa outra ilha deste arco verde, por onde vão cumprindo os seus ancestrais ofícios de marinheiros vagabundos.
 

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 [1]   Cidade da Praia, capital de Cabo Verde.

[2]   Prato típico da gastronomia de Cabo Verde confecionado à base de milho, feijão, carne e/ou peixe.

[3]   Vinho produzido nas terras vulcânicas da Ilha do Fogo.

[4]   Aguardente feita a partir da cana do açúcar (crioulo do Sotavento).


( in, O OURO BREVE DIAS, @jose.alberto.mar-2021)