José Alberto Mar. Com tecnologia do Blogger.

21.2.26

Interrogações

Pintura  J. A. M.

1

 
Bate-me à porta a noite
o silencioso exercício do Mundo
acontece-me na mais pura beleza
do que parece estar nu.
 
Inspira-me a visão das linhas curvas
dos sons e a inutilidade das mãos
quando a intenção desta beleza é estar
à altura do espanto.
 
Sou, pois, mais um ser
dominado pela voz, cantando
o seu exemplo de onda transformada
em espuma.
 
 
2
 
 
É sempre à noite, quando a luz
caminha de soslaio entre as paredes do mundo e
chego à casa da minha existência.
 
É sempre fria esta estranha sensação a distância
entre tudo o que parece real dentro da casa
ou dessa voz vadia
que canta desamparada e só.

 

 ( J. A. M. )

 

 

 

 

 

13.2.26

O Olhador

Pintura. J. A. M.

 

As obscuridades da noite ampliam o espaço do coração
pelo silêncio instalado.
Outros ritmos de tambores celestes invadem os rios interiores
que transbordam.
Barcos incógnitos e luminosos aproximam-se.
São mensagens de outros mundos que nossos mundos são.

Já não ouso decifrar. Porque pensar é estancar a corrente
germinar barragens.
Prefiro abrir as asas metafóricas e de peito aberto e livre
acolher as imagens vindouras que devagar me designam
e me fazem ser o que afinal já era.
 
Confesso, sou sempre pouco para o que digo.



( J. A. M.)

 



30.1.26

aproveito-me das palavras para desarrumar o leito dos rios que me percorrem

Pintura. J. A. M.



De um lado o inferno. Ao lado o céu.
Regresso ás duas margens: a escuridão e a luz. Os nomes abastados, derivados das noites e dos dias. Há quem os atravesse inventado pela sua natural consciência: hoje uma dor, amanhã uma alegria.
Há uma autoridade instalada neste modo de estar na vida. Uma invenção entronizada como se o tempo que temos, enquanto seres vivos, fosse uma tatuagem com o halo da eternidade. Também há quem acredite em sentenças descobertas em coisas consideradas simples: um sorriso descido, um olhar iluminado, um gesto que se desenha sozinho, um encontro ao acaso, algemas que se soltam.
 
Nestas paisagens a beleza do Mistério, por onde viajamos, aproxima-nos e afasta-nos de nós. Tornamo-nos íntimos da distância: entre o inferno e o céu há um intervalo por onde o verbo se inicia e expande e tem a intenção de um ofício.
Para cada um as suas margens e o leito do rio convocado através de milhares e milhares de vidas abandonadas com sentido.


( J. A. M. )
 
 

19.1.26

Já não me recordo

Pintura. J. A. M.

 

Já não me recordo se era uma luz exterior 
ou vinda de dentro de mim, mas tudo
estava incandescente
de uma forma natural e o Mundo
tinha um amplo sentido exato
em todas as coisas.
 
A certa altura, olhei-me de longe
e com o decorrer dos anos aprendi
a esquecer-me de mim.
 
No entanto, sou cada vez mais
esse vaso de luz
onde a luz me ensina.


( J. A. M. )

11.1.26

A Última Paciência

Pintura. J. A. M.


Há rostos como espelhos transparentes dos dois lados
nas estreitas portas dos olhares. Basta, por vezes
uma desatenção mais aventurada da vida em nós
para vermos nesses rostos uma dignidade de astros
afastarem as sombras à volta, e ao vermos, recebemos
o centro expansivo de uma voz nos olhos, as fontes
escritas sem letras visíveis. As imagens que temos
de nós próprios desarrumam-se como nuvens
que se afastam e com a distância acabam por perder-se
sei lá por onde. Assim se iniciam os exercícios
marginais no interior dos corpos
as fronteiras saturadas dos dias
as vozes mais íngremes de uma Vida sempre
para além dos nomes.



( J. A. M.)

 

 

3.1.26

Mais uma viagem

Pintura ( Os 4 pontos cardeais)~J. A. M.

 

Mais uma viagem aproxima-se caminho lentamente
para o barco amparado pelas águas da Vida
ao lado
as redes rendilhadas e sempre frágeis do mundo.

Como um simples sopro tento apenas ser
o seu alento.

Parece-me que quem assim respira
talvez possa encontrar, encontrar-se, encantar-se.
A Natureza e os Outros serão
sempre a sua medida.


( J. A. M. )