José Alberto Mar. Com tecnologia do Blogger.

14.3.26

TEMPOS de TRANSIÇÃO

OVNI. J. A. M.

 

 
Há novas luzes nos céus pouco límpidos deste mundo.
Permanecem um desentendimento algo que transcende.
Entre as dúvidas e as certezas arde o silêncio
da curva fechada da ignorância, na distração, da língua
de alguns desalmados que não coroam sua expressão fraterna.

Vivemos tempos de transição.

Há sombras que se iluminam e se dissolvem, há luzes
que se ordenam exasperando os olhares.
Tanto vale anunciar como apaziguar uma perplexa descoberta
pois as multidões permanecem persuadidos em outras quimeras.
No entanto, alimentam o mistério.
Porque TUDO é sempre mistério.
Na minha cabeça as oficinas trabalham em vão.
No meu coração tudo se alinha. Na minha intuição, também.

 

( J. A. M. )

11.3.26

Coisas de Cuba

Pintura. J. A. M.

de onde em onda, os relâmpagos ao fundo assinalavam as vertigens da noite. Aconteciam esporadicamente como se fosse por acaso, como se o acaso não tivesse dono. Pareciam lentos nas suas próprias demoras nos olhos até nos sons que só aconteciam às vezes, como as súbitas surpresas que nos caiem bem.
Entretanto
o terraço no meio da grande escuridão sem algum fim à vista desarmada, apenas havia as estrelas que me levavam a vislumbrar a lua acesa no seu C.Q., e assim deixava-me navegar conduzido pela luz que se fazia presente.
Aconteceu-me há uns tempos atrás, às tantas de uma viagem prolongada na boca escancarada de um lugar aprovado pelos seus deuses bem atentos a estas circunstâncias.
 

Repentinamente, uma sombra alada veio poisar na mesa onde havia 1 cinzeiro de cobre, dourado na altura por uma pirisca de Hollywood (1) ainda viva. Tão estranha presença deixou-me atónito. Olhou para um pedaço de papel onde eu escrevera um poema, e este papel ganhou uma leveza de ave lenta e começou a levantar-se á frente do meu olhar assombrado. Sem me aperceber, como que automaticamente, levantei a mão direita e toquei no papel que continuava a esvoaçar com formas de asas e entre nós havia uma comunhão física que me dividia entre o espanto da surpresa e a proeza de o ter apanhado de um modo suave e natural, já o seu voo ia alto. Pousei o papel novamente na mesa e, quando aconteceu olhar para o poema este já era um outro: mais apurado mais perfeito, pensei na altura.


Por algum tempo julguei tudo isto como um sonho, e num momento de dúvida mais agudo fui ao álbum das fotos (2) e reconheci facilmente aquela “sombra alada” com o qual dialoguei por momentos, com alguns relâmpagos silentes a interromper-nos. E, na foto o poema evolava-se como uma pequena chama.
 

(1    (1)   Marca de cigarros.

(2    (2)  Perante a novidade do acontecimento tirei uma foto rápida com o telemóvel.

 

 (Trinidade. Cuba.)



(J.A. M.)

6.3.26

Alguém disse já não recordo, foi num campo de batalha

PINTURA. J. A. M.

 
Alguém disse já não recordo, foi num campo de batalha e o ribombar das bombas e dos seus ecos na altura, faziam-nos surdos. A outros, faziam-nos cegos. A outros ainda, faziam-nos mortos. Mas a frase em questão, no meio daquele inferno encantou-me o lugar e por momentos caí num silêncio sem tempo, que me trouxe a casa da minha infância, longe muito longe, onde havia um jardim. E a frase era assim: não corras atrás das borboletas, cuida antes das tuas flores que elas virão até ti .

Ainda hoje, passados séculos, por vezes em dias ou noites em que tudo parece estranhamente desolador, me acontecem as imagens bem nítidas que esta frase levanta à frente do meu olhar. 
E então, algo em mim se transforma e tudo à minha volta também.




P.S. Diante do abismo da barbárie, a arte não é um refúgio, mas a afirmação ontológica da nossa humanidade. Entre a ruína e o devir, tento transmutar o conflito em vontade de criar.



( J. A. M. )


3.3.26

Entre 2 Universos

Arte Digital. J. A. M.

 

Depois de viajar por muitos universos, as asas descem
mais frágeis mais invisíveis
apenas dois olhos na luz possível.
 
Por aqui, neste mundo, à minha volta: 2 universos, apenas.
O Universo do Amor e o Universo do Medo.
Cada um com inúmeras portas e janelas e nomes encobertos
e descobertos por onde se entra e sai e se volta a entrar e a sair.
Diariamente, luminosamente, noturnamente.
 
O círculo a levantar-se em espiral, ainda a sobrevivência
do macaco nas demonstrações da luz ou
a luz derramada em forma de cruz.
 
Ludibriaram-nos! Tudo crenças.
Tudo inscrito, tudo escrito em todos os lados
dentro das cabeças, na água oceânica no interior dos corpos
nas paredes inventadas por fora e por dentro
nas alegrias e na dor.
 
- De que lado crescem os teus dias?


( J. A. M.)

 

21.2.26

Interrogações

Pintura  J. A. M.

1

 
Bate-me à porta a noite
o silencioso exercício do Mundo
acontece-me na mais pura beleza
do que parece estar nu.
 
Inspira-me a visão das linhas curvas
dos sons e a inutilidade das mãos
quando a intenção desta beleza é estar
à altura do espanto.
 
Sou, pois, mais um ser
dominado pela voz, cantando
o seu exemplo de onda transformada
em espuma.
 
 
2
 
 
É sempre à noite, quando a luz
caminha de soslaio entre as paredes do mundo e
chego à casa da minha existência.
 
É sempre fria esta estranha sensação a distância
entre tudo o que parece real dentro da casa
ou dessa voz vadia
que canta desamparada e só.

 

 ( J. A. M. )

 

 

 

 

 

13.2.26

O Olhador

Pintura. J. A. M.

 

As obscuridades da noite ampliam o espaço do coração
pelo silêncio instalado.
Outros ritmos de tambores celestes invadem os rios interiores
que transbordam.
Barcos incógnitos e luminosos aproximam-se.
São mensagens de outros mundos que nossos mundos são.

Já não ouso decifrar. Porque pensar é estancar a corrente
germinar barragens.
Prefiro abrir as asas metafóricas e de peito aberto e livre
acolher as imagens vindouras que devagar me designam
e me fazem ser o que afinal já era.
 
Confesso, sou sempre pouco para o que digo.



( J. A. M.)

 



30.1.26

aproveito-me das palavras para desarrumar o leito dos rios que me percorrem

Pintura. J. A. M.



De um lado o inferno. Ao lado o céu.
Regresso ás duas margens: a escuridão e a luz. Os nomes abastados, derivados das noites e dos dias. Há quem os atravesse inventado pela sua natural consciência: hoje uma dor, amanhã uma alegria.
Há uma autoridade instalada neste modo de estar na vida. Uma invenção entronizada como se o tempo que temos, enquanto seres vivos, fosse uma tatuagem com o halo da eternidade. Também há quem acredite em sentenças descobertas em coisas consideradas simples: um sorriso descido, um olhar iluminado, um gesto que se desenha sozinho, um encontro ao acaso, algemas que se soltam.
 
Nestas paisagens a beleza do Mistério, por onde viajamos, aproxima-nos e afasta-nos de nós. Tornamo-nos íntimos da distância: entre o inferno e o céu há um intervalo por onde o verbo se inicia e expande e tem a intenção de um ofício.
Para cada um as suas margens e o leito do rio convocado através de milhares e milhares de vidas abandonadas com sentido.


( J. A. M. )
 
 

19.1.26

Já não me recordo

Pintura. J. A. M.

 

Já não me recordo se era uma luz exterior 
ou vinda de dentro de mim, mas tudo
estava incandescente
de uma forma natural e o Mundo
tinha um amplo sentido exato
em todas as coisas.
 
A certa altura, olhei-me de longe
e com o decorrer dos anos aprendi
a esquecer-me de mim.
 
No entanto, sou cada vez mais
esse vaso de luz
onde a luz me ensina.


( J. A. M. )

11.1.26

A Última Paciência

Pintura. J. A. M.


Há rostos como espelhos transparentes dos dois lados
nas estreitas portas dos olhares. Basta, por vezes
uma desatenção mais aventurada da vida em nós
para vermos nesses rostos uma dignidade de astros
afastarem as sombras à volta, e ao vermos, recebemos
o centro expansivo de uma voz nos olhos, as fontes
escritas sem letras visíveis. As imagens que temos
de nós próprios desarrumam-se como nuvens
que se afastam e com a distância acabam por perder-se
sei lá por onde. Assim se iniciam os exercícios
marginais no interior dos corpos
as fronteiras saturadas dos dias
as vozes mais íngremes de uma Vida sempre
para além dos nomes.



( J. A. M.)

 

 

3.1.26

Mais uma viagem

Pintura ( Os 4 pontos cardeais)~J. A. M.

 

Mais uma viagem aproxima-se caminho lentamente
para o barco amparado pelas águas da Vida
ao lado
as redes rendilhadas e sempre frágeis do mundo.

Como um simples sopro tento apenas ser
o seu alento.

Parece-me que quem assim respira
talvez possa encontrar, encontrar-se, encantar-se.
A Natureza e os Outros serão
sempre a sua medida.


( J. A. M. )