José Alberto Mar. Com tecnologia do Blogger.

11.3.26

Coisas de Cuba

Pintura. J. A. M.

de onde em onda, os relâmpagos ao fundo assinalavam as vertigens da noite. Aconteciam esporadicamente como se fosse por acaso, como se o acaso não tivesse dono. Pareciam lentos nas suas próprias demoras nos olhos até nos sons que só aconteciam às vezes, como as súbitas surpresas que nos caiem bem.
Entretanto
o terraço no meio da grande escuridão sem algum fim à vista desarmada, apenas havia as estrelas que me levavam a vislumbrar a lua acesa no seu C.Q., e assim deixava-me navegar conduzido pela luz que acontecia
Aconteceu-me há uns tempos atrás, às tantas de uma viagem prolongada na boca escancarada de um lugar aprovado pelos seus deuses bem atentos a estas circunstâncias.
 
Repentinamente, uma sombra alada veio poisar na mesa onde havia 1 cinzeiro de cobre, dourado na altura por uma pirisca de Hollywood (1) ainda viva. Olhou-me nos 2 olhos e eu atarantado de todo também. Depois olhou para um pedaço de papel onde eu escrevera um poema, e este papel ganhou uma leveza de ave lenta e começou a levantar-se á frente do meu olhar atónito. Sem me aperceber, como que automaticamente, levantei a mão direita e toquei no papel que continuava a esvoaçar com formas de asas e entre nós havia uma comunhão física que me dividia entre o espanto da surpresa e a proeza de o ter apanhado de um modo suave e natural, já o seu voo ia alto. Pousei o papel novamente na mesa e, quando aconteceu olhar para o poema este já era um outro: mais apurado mais perfeito, pensei na altura.

Por algum tempo julguei tudo isto como um sonho, e num momento de dúvida mais agudo fui ao álbum das fotos (2) e reconheci facilmente aquela “sombra alada” com o qual dialoguei por momentos, com alguns relâmpagos silentes a interromper-nos. E, na foto o poema evolava-se como uma pequena chama.
 

(1    (1)   Marca de cigarros.

(2    (2)  Perante a novidade do acontecimento tirei uma foto rápida com o telemóvel.

 

 (Trinidade. Cuba.)



(J.A. M.)

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