José Alberto Mar. Com tecnologia do Blogger.

31.5.26

REGRESSO AO ESPANTO

Pintura. J. A. M.

 
Duas buganvílias inclinadas sobre si. Inclinadas sob o sol. Inclinadas pelas sombras. Como um casal. Abraçado.
Eis o exemplo da Natureza no silêncio fundo do olhar, nos vastos horizontes das aspirações que nos acontecem.
O amor é um sopro festejado na sua procura. Entretanto a paixão é um asilo feroz, transfigura a carne em abandono.
 
Regresso ao amor, como um bálsamo que se amplia no assombro dos gestos mais simples.
Talvez um poema possa ser um espelho inquieto desse amor transformado em morada.
Olho as buganvílias, sinto um sopro ameno e o espanto regressa.



( J. A. M. ~ Maio-2026)

 

27.5.26

Pontos de vista

UNIVERSOS PARALELOS. J. A. M.

 

     José Alberto Mar afirma-se inequivocamente como pintor, poeta e visionário. No vasto campo das suas obras articula um campo visual que transcende a mera organização formal para se inscrever num domínio simbólico e especulativo. As composições estruturam-se a partir de uma linguagem criptografada, onde signos e sinais se dispõem segundo uma lógica interna que escapa à leitura imediata, exigindo do observador um exercício interpretativo sustentado.
     A matriz visual convoca referências às ciências ancestrais, sugerindo a presença de sistemas de conhecimento arcaicos, simultaneamente esotéricos e estruturantes, que operam como fundamento de uma possível linguagem universal. Esta não se apresenta como código estável, mas como dispositivo aberto, em constante reconfiguração semântica, onde o sentido emerge da relação entre forma, ritmo e repetição.
     O rigor compositivo, aliado à aparente fragmentação dos elementos, contribui para a construção de um sistema visual coeso, no qual se evidencia um estilo único, marcado pela tensão entre ordem e indeterminação. Neste contexto, a obra aproxima-se de uma exolinguística, entendida como um campo de significação que ultrapassa os limites da linguagem verbal e culturalmente codificada, operando num plano expandido da perceção e do pensamento.

 

- Lanys  Arden (2026) –

17.5.26

O Espaço que Fica

Pintura. J. A. M.

 

1
 
E agora desceu o silêncio.
O ouro da ausência onde o universo nos inscreve.
A presença do livro que se despe após a leitura.
 
Há portas que se abrem para quem quer festejar
os jardins, a água e o fogo
a consumação das sementes, as alianças com o Mundo.
 
 
2
 
Entretanto há um tempo suspenso
entre as paredes deste quarto
e o meu peito
onde uma fenda guarda um segredo antigo
e uma cicatriz esquecida  respira em silêncio.

 



( J. A. M.)

 

 

 

11.5.26

O meu problema pessoal com as galinhas

Pintura. J. A. M.




Estava no meu cadeirão anti-stress, enlevado sei lá com quê se é que havia tal coisa quando me ocorreu - repentinamente - que afinal tenho uma incerta desavença, pacífica é claro, com as galinhas. Assim à 1ª a coisa não me parece ser grave, mas eu nunca tenho a certeza de nada. E já comecei a cacarejar justificações, até são uns bichos interessantes, quando estão a comer debicam algo no chão tão rapidamente que nem enxergo o quê e depois atiram as cabecinhas para o céu e estão nestas figuras amiudadas vezes. Nos inícios de tais observações eu olhava - imediatamente! - lá pra cima tentando vislumbrar o que era o alvo de tal curiosidade inopinada, pois eu quando como, habitualmente olho para o que está à frente do meu nariz e deixo os céus para as ocasiões místicas. Prosseguindo os já citados cacarejos, também gosto das suas penas, algumas mais, pois vê-se ali a mão da mãe-natureza o deslumbre da luz a desfazer-se em cores.
Tive uma amiga artesã, das américas do sul salvo erro, que alimentava uma galinha com o intuito assumido de lhe arrancar apenas uma pena de vez em quando, para os seus colares & aquelas obras de arte que lhe davam o pão para a boca. É verdade! Também havia por lá 1 macaco pendurado nas traves da casa, que eram ramos grossos de uma acácia que lhe entrava por ali dentro para lhe oxigenar gratuitamente o ambiente. Uma vez estávamos eu e ela esparramados lá no seu jardim sem cercas que se prolongava por uma floresta a sério cheia de borboletas estonteadas e belos pássaros a esvoaçarem com as suas cores, Tudo junto era bom respirar ali, e então estávamos nós a fazer o nada e aparece o seu filho por aí nove anos se tanto, e deu-me uma lata de coca-cola transformada em cinzeiro para as cinzas do meu fogo no cigarro que ardia alheado disto tudo. O meu preconceito em relação à coca-cola é assumidamente enorme, mas a Brigite sentiu logo a coisa e explicou-me que era a maneira do menino me dizer que gostava de mim e como não tinha mais nada para brincar, costumava apanhar latas no lixo dos Sr.s lá em baixo na cidade e depois transformava-as no que lhe vinha à cabeça e ao coração e, sinceramente, aquilo era uma piquena obra de arte. Olhei para a criança como quem olha para um Deus e os seus olhos eram luminosos e felizes e eu,,,eu também fiquei feliz e com a voz embarcada num nó cego até às lágrimas que contive. A mãe sentiu tudo como só as mulheres sabem e ofereceu-me um chá que dividimos pelos 3.

Afinal, a bem dizer eu até gosto das galinhas, a maneira como se deslocam com as duas patas indecisas parecem sempre inquietas à toa, mas isso não passa de + uma perceção pessoal, pois suspeito que só vejo aquilo que sou e aí há que ter uma certa parcimónia nas coisas dos julgamentos, juízos de valor, essas lérias.
São precisamente 5 h. e tal da noite e ainda estou pr’aqui com as minhas irmãs galinhas, que são muitas no meu quintal, sem medos dado que eu não as papo pois adotei a moda saudável de ser vegetariano já faz um tempo que estou sentado à sombra de 1 pinheiro que também habita comigo ali no canto onde lhe deu para estar e dá-me pinhas às vezes pinhões que eu amontoo numa tigela azul e branca da dinastia Ming que tenho na cozinha, foi uma namorada chinesa mesmo da China que m´a deu, o pai era podre de rico, segundo ela, mas fiquei sempre na dúvida se a peça era realmente verdadeira ou não, mas como não ligo a tais valores, o que me agradou foi a sua beleza  singular. À superfície, na epiderme colorida, o branco e os azuis entrelaçados como fios de cabelos ondulados parecem dançar uma música que julgo escutar às vezes, quando o silêncio à volta se fecha e estou muito dentro. Quando acumulo forças suficientes, pego nos tais pinhões às mãos cheias e quebro-lhes as couraças, um a um atentamente, com uma pedra de estimação que tenho sempre à mão de semear para ocasiões mais determinantes.

Depois desta ocasional divagação, retorno à cabeça da pescadinha de rabo na boca que agora com o tempo já é uma serpente a morder a cauda que dá veneno, que também pode ser remédio, tantas vezes se dá este caso há esotéricos que o dizem, e o que eu nesta realidade   pretendia dizer é que elas, as minhas amigas galinhas, têm uma relação íntima visceral com o Sol que eu naturalmente também mantenho com todo o apreço deste mundo e dos outros, mas também gosto das estrelas e da lua e dos silêncios azuladamente brilhantes quando o são outras vezes nem por isso acontecem estas circunstâncias de um gajo estar ~ graças a Deus ~ a respirar mesmo vivo no meio destas montanhas onde o meu patrão sou eu não.

 

( J. A. M.)

 

9.5.26

(lírios)

Pintura. J. A. M.

 

Viemos de longe
da vagina das mães, prenúncio dos dons cósmicos, a inaudita descoberta do grande enigma.
- rebentam-me os lábios com tais palavras.
 
Uma luz impaciente invade-me. Eis o prestígio do que é diário e parece comum. As ondas do ar desdobram-se em ondas. As ondas do mar respiram, inspiram, não se esforçam por ser, em vertigem, em confissão, em celebração, tudo naturalmente.
Eis a exatidão do que em nós também é.
Dissimulados nos dons, somos sempre o desconhecido lugar da saída, com todas as portas abertas.  E esquecemos.
Uma cegueira enorme escuta o silêncio, depois do confirmado enredo da vida. Estamos aqui, a palavra repete-se: “aqui” e as ondas desaparecem nas areias das nossas praias desertas.
Inalterável esta estória refugia-se no corpo. É o corpo que enobrece a distância, é o corpo que abre as distâncias, é o corpo que se despede das distâncias.
Ninguém perturba ou acrescenta os meus caminhos. Somente quem chamo. Embora me perca igualmente no rasto de quem nunca nomeei.


( J.A.M.)

 

2.5.26

O Aparente Absurdo

1ª Imagem realizada com IA - J. A. M.


Somos o eco de uma voz que esqueceu a sua própria origem. No centro da profunda solidão humana, quando a sentimos, o universo parece  suspender o sopro para decifrar o abismo que o inventou.

 (J. A. M.)