3.4.17

série: Diásporas.


~ Mercado de Sucupira ~

7 horas e tal, as mãos cheias de moscas,  várias sacudidelas às vezes,,, i
uma delas está a poisar AGORA!...Zás !...apanhei-te….
e depois olho e não vejo nada
e então, no interior de uma antiga camioneta transformada em restaurante, depois de ter aviado uma cachupa num prato de lata redOndo mesmo, estou numa mesa à porta da dita a colher imagens da gente que vende coisas, que compra algumas dessas coisas e da gente que passa de um lado para o outro abrindo naturalmente o ar que as ampara.
No geral “ a coisa está preta”. Depois, levanta-se nas cores das roupas. Dá-me a impressão, ainda sujeita a posterior confirmação, que o vermelho é o eleito. Impõe-se só por si, a seguir há os amarelos e os verdes em N tons. O verde-alface é bem considerado por aqui. O branco, obviamente.
Uma jovem mulher expõe com 1 só braço suspenso exactamente uma garrafa grande de água gelada e espera alguém que a leve. Tem uma bunda maravilhosa e sei lá por que é que olhei para este caso.
Alguém transporta carne de um animal já muito morto numa bacia de plástico cor-de-rosa em cima da cabeça, mas o que eu vejo com estes 2 olhos que a terra há-de comer, é uma chusma de moscas tresloucadas com o manjar. Irão pesar as moscas também aquando do negócio ou serão o brinde, com certeza.
Lá ao longe o céu está assim-assim-escurecido, sei lá o que vai ser por aki nunca se sabe & já transpiro bastante ponho-me nu, da cintura até á cabeça exponho o peito a alma tudo.
Passa mesmo á frente do meu nariz, uma menina toda sirigaita retocando os cabelos com uma mão distraída e a treinar o gingar das ancas que ainda se estão abrir às sementes que um dia virão, e lá vai ela muito compenetrada no seu papel de ser gente também, à espera de ser amada quando acontecer e será para breve, suspeito.
Ali vai um gajo todo inclinado para o rádio na mão esquerda junto ao ouvido do mesmo lado e é música que não tenho tempo de saber, mas com aquele ar tão feliz é boa de certeza.
Ainda
as eternas mangas as bananas ao lado juntas ao quilo, tudo ordenado segundo 1 critério colorido e  a evidente & dura realidade da sobrevivência. São as mulheres, sempre rodeadas de bandos de filhos que erguem toda esta trabalheira. Cumprem-na devotadas e depois ao fim do dia, no silêncio pesado da noite instalada, desenlaçam-se, encostam ao de leve a cabeça a uma esperança que nunca vislumbrei e ficam assim desimportadas até que o sono as recolha.
O papel dos homens por estes lados, parece-me que é atirarem-se a elas esporradicamente e depois basam logo na primeira curva dencontro às luzinhas do grogue, ou desenrascam mais um poiso temporário algures numa outra ilha, por onde vão cumprindo os seus ancestrais ofícios de marinheiros vagabundos.
E são as mulheres as raízes destas 10 ou dez mil ilhas.
O resto é mar, mar e mais mar
e depois ainda
o    m ~ a ~ r
 
 
(J. A. M. ~ Cabo Verde. Ilha de Santiago. Praia – 2008. Alterado.2011;2017; e 4-4-17)

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