José Alberto Mar. Com tecnologia do Blogger.

28.5.25

1º Encontro

Pintura. J. A. M.


Era um lugar que, mal entrámos, se tornou ausente. Entretanto, tecemos um espaço e um tempo, coroados por quatro olhos uma ponte comunicante, sobre algo circular o tampo de mármore da mesa onde as palavras caiam redondas, finitas e havia miríadas de estrelas a rebentarem no desamparo das mãos quando se tocavam.
As gaivotas vinham açoitadas pelo mar agora sem peixes nem pescadores e abriam lá fora os espaços altos à procura. Eram sombras nos intervalos apanhadas pelos acasos, quando olhava de soslaio pelas vidraças húmidas do café. Enquanto ambos permanecíamos num fogo amornecido que insistia em não acordar. Era o 1º encontro.
À-volta havia os outros, longínquas sombras, e em poucos minutos nem sombras já aconteciam. Estávamos fechados em nós alegremente sós. Por dentro senti metafóricos desejos de serem mais, algo que só na altura sabia, cresciam para cima e para baixo como nas árvores a seiva, nas galáxias a luz. Ela delongava-se em silêncios num jardim, para mim, sem nomes.
 
Agora vejo como fui vago na travessia desse encontro. As luzes dos teus olhos bebiam a minha sede. E, era uma sede viajada para dentro, ensaiada pelas tímidas danças do silêncio. Por onde perscrutava os teus segredos aguardando vislumbrar o fino ouro do teu mistério.



( J. A. M. )

20.5.25

Mais 1 Dia

Pintura. J. A. M.

 

Apagam-se as luzes devagar enquanto a tarde
ainda é demasiado grande ao entrar
no meu olhar. Tudo parece grande
neste meu estar.

Uns restos de barulho, algumas sombras
a mais entre as palavras e lembro
os rostos apressados, as tiranias do vazio
quase tão oco por dentro e por fora
como algo sem qualquer vida.

São assim estes dias com as mãos cheias
de projetos & objetos, enquanto o corpo
desenha por dentro o seu mapa sobrevivente
e por aí vai ancorando
deambulando
e reclamando
o seu lugar ao sol e à sombra
precisamente a meio, sempre à beira
de um destino maior.



( J. A. M.)

 

18.5.25

nada do que é fruto acontece sozinho

Pintura. J. A. M.



Estremece a estrela que em mim vive
naturalmente aberta à escuridão
e nos 2 olhos cintila
o véu do instante, a aparência maior
do que é superfície e aí se afoga
pois na multidão dos dias a vida
tornou-se mecânica.


Vejo em todos os gestos uma luz amparada
pelo silêncio que aspiro
o lugar onde qualquer semente pensa
sonhando com tudo
pois nada do que é fruto
acontece sozinho.


(J. A. M.)

 

 


 

17.5.25

Santo Antão, a ilha dos andarilhos

Pintura. J. A. M.


     Quando cheguei a Porto Novo, através de um ferryboat que dançou toda a viagem desde São Vicente, dei-me conta que não tinha 1 escudo em algum bolso. Máquinas automáticas por ali também não. Mais uns minutos adiante o gerente da única dependência bancária no local, após uma conversa que tentou ser convincente e persuasiva e até o foi ao cofre da dita e depositou-me 10 contos na mão.  Depois paga-me.  Nada habituado a tais gestos apeteceu-me repentinamente beijar-lhe os pés, mas no lugar dos mesmos havia uns sapatos pretos a reluzirem que me estancaram a intenção e ainda fui a tempo do tal bom senso. Após as mais que necessárias palavras da ocasião, amanhã venho ká pagar-lhe/ não é necessário basta depositar nesta conta lá no Mindelo/ Muitíííssimo obrigado e aqui num gesto realmente espontâneo, fiz da sua mão dtª uma pérola entre as minhas duas mãos em concha, olhei-o direto nos olhos e disse-lhe algo onde as palavras não chegam, mas vi logo que ele tinha lá chegado. Os cabo-verdianos são pessoas de uma sensibilidade subtil muito rara e suspeito que a morabeza será um dos frutos desse estar.(1)
     Ficou um sorriso cúmplice matriculado no ar, algo de belo neste mundo, a que regresso algumas vezes pelos imperiosos acasos da memória ou os outros casos que não sei. E saí para o sol que logo me abençoou num aconchego entre nós tão íntimo, tão normal, que me senti humildemente feliz pensando com os meus botões, neste caso de rosas que brotaram de repente à frente dos meus olhos deslumbrados.
     E então chamei a namorada que estava visivelmente em baixo devido à situação nesta outra altura já resolvida. Dei-lhe uma explicação por alto acerca do milagre acontecido, metemo-nos num “hyace” que estava por ali à espera de ficar cheio e lá fomos sem precisarmos de saber qual o destino. A certa altura o motorista resolveu fazer uma stopagem mais ou menos breve numa montanha altíssima cujo nome não me ocorre agora, mas ocorre-me muito bem a beleza estonteante das paisagens que se multiplicavam entre si nas incontáveis pontes do olhar. Lá em baixo o desenho de um telhado de milho seco outro além, mais uma cabra ou outro animal manso ligados ao silêncio de basalto que murmurava algures num ribeiro vivo por aquelas “levadas”.
     Desembocámos em Paúl, um tanto ou quanto azoados pelos ziguezagues do percurso começámos por enxergar algumas casas juntas com as portas e as janelas de cores vivas claramente, o cheiro do marisco a toldar tudo muito parado aparentemente com as raízes afundadas nos desígnios de uma ilha, onde jovens dengosas deitadas sobre os muros das suas vidas e amornecidas pelo sol alongavam as belas pernas nuas para o mar que estava bravo  e  os machos entretinham-se convictamente a jogar o “úril”(2) entre os meandros das bolinhas verdes escurecidas por muitas gerações e protegidos pelas sombras bafejadas por um marmulano.
     Como todos sabemos, quando estamos bem o tempo é outro e, entretanto, chegou a hora já pago o bilhete de retorno lá me arrankei do lugar e só eu e Deus é que sabemos com que esforço, transportámos dali os olhos os ouvidos o corpo inteiro a transbordar em ondas. Quando me aproximei de Mindelo num outro ferry ainda mais baloiçado reparei no habitual nevoeiro agora aceso pelo pôr-do-sol que acontecia sobre a cidade. Também re/parei que estava só e quase tinha a certeza de ter ido com a namorada.     

     Desembarquei com aquele maralhal todos muito coloridos por todos os lados, à espera havia outros aromas atlânticos que me acompanharam até ao “café Mindelo” onde troquei algumas frases com uns amigos acerca de algo que talvez fosse relevante na altura. Para variar, fui jantar à esplanada do Grande Hotel, bem acompanhado pelo bulício redondo da Praça Nova e, por fim, abri-me à noite mindelense e fiquei com a impressão que fui engolido pela mesma francamente já não me lembro de + nada

 

---------------------------------------------------------------------------------------------

(1) "É por isso que te aconselho a tomares lição nessa gente para depois falares, com propriedade, da sua vida e das suas lutas. Se queres falar de dor, sofre primeiro. Sem isso não mereces o mandato”.
(Manuel Lopes, escritor.)

(2) "Pensa-se que o jogo terá sido inventado pelos egípcios que depois o levaram para a Ásia e Filipinas. Mais tarde, chega à África Negra, e região do Sahara. Por volta do século XV ou XVI, os escravos terão levado o úril da África para a América, mas atualmente apenas há registo de que se pratica nas Antilhas”, explica Albertino Graça, praticante de úril e autor do livro “Jogo de Uril: Regras, Estratégia e Teoria” (Edição da ONDS - Organização Nacional da Diáspora Solidária, Mindelo).

 

 

(J. A. M. ~ Ilha de Santo Antão. Cabo Verde)


    


15.5.25

entre 2 Universos

O JOGO. Pintura: J.  A.  M.



Depois de viajar por muitos universos, as asas descem
mais frágeis mais invisíveis
apenas dois olhos na luz possível.
 
Por aqui, neste mundo, à minha volta: 2 universos, apenas.
O Universo do Amor e o Universo do Medo.
Cada um com inúmeras portas e janelas e nomes encobertos
e descobertos por onde se entra e sai e se volta a entrar e a sair.
Diariamente, luminosamente, noturnamente.
 
O círculo a levantar-se em espiral, ainda a sobrevivência
do macaco nas demonstrações da luz  ou
a luz derramada em forma de cruz.
Ludibriaram-nos! Tudo crenças.
Tudo inscrito, tudo escrito em todos os lados
dentro das cabeças, na água oceânica no interior dos corpos
nas paredes inventadas por fora e por dentro
nas alegrias e na dor.

 
- De que lado cresces nos teus dias?




( J. A. M. )

 

 


14.5.25

"MONTE CARA"

Foto. J. A. M.

os ramos das palmeiras ao sabor da leve brisa
e os sons frescos encaminham-me para o mar
onde vejo um pensativo rosto de pedra.
 
Feliz escureço o olhar à procura
da lua, esse vaso de luz
onde uma das luas se deita
e então eu sou, a sombra pousada
dessa luz alheada.

 

(J. A. M. ~ Cabo Verde. Ilha de São Vicente. Mindelo)

 

13.5.25

dos sons da harpa

Imagem Transformada. J. A. M.

Para a formação de 1 texto configuro uma consagração, um pequeno reflexo da consciência convertida em palavras. A subjetividade é inerente como a lapa na rocha. O que se pretende mostrar é a miragem do oceano que bate na rocha.
 
No mar Jónico há uma ilha que dá pelo nome de Ítaca. A norte o Monte Nirítos e a sul o Monte  Merovígli. Pelo meio oliveiras e vinhas. Seres humanos, também.
Estas geografias aparentemente aproximam-nos do texto. Um hiato para voltarmos a mergulhar. Trata-se de uma ilha.
Ulisses antes de ser rei de Ítaca (séc. XII a.c.*) deambulou por mundos, vivencias, pensamentos e sentires. Demorou-se em cada lugar onde acontecia esquecendo o seu destino. As mãos nas mãos, o rosto no rosto, o olhar no olhar, o corpo no lugar, a alma benfazeja. Durante infindáveis noites escurecia, perante os transitórios dias iluminava-se. Descobria em cada canto mediterrânico do mundo o seu espaço desabrochado em si.
Quando chegou a Ítaca a fiel Penélope abriu-lhe os braços e ambos morreram ambos renasceram e Mundo ficou irremediavelmente maior.


*segundo Homero.

 

(1ª versão.04-05-2025. J. A. M. )


 

( Fora da "Caixa") ~ Within You Without you

11.5.25

Há coisas do diabo. Já fui ao Paraíso. E voltei.

Pintura. J. A. M.

 
Há coisas do diabo. Já fui ao paraíso. 
E voltei.
Estava já quase acordado no meu quarto do Hotel Europa, quando a Ana e a Joyce abriram a porta em leque cheias de sorrisos floridos e me convidaram para dar um passeio pelas franjas de Gaibu. Lá me levantei um tanto ou quanto aturdido pelas caipirinhas da noitada anterior, mas depois de beber o coco fresco que me atiraram de chofre fiquei logo fino, vesti a t-shirt e os calções de sempre e lá fomos, que nem 1 trio harmonia pelo dia adiante.
Passámos pelas ruínas do Forte São Francisco Xavier, eram pedras amontoadas por ali pelas leis do acaso e com alguma parcimónia sobrava a placa, livrei-me das alpercatas (1) na linda praia de Calhetas, onde vi ondas amortalhas sobre a própria espuma fresca nos meus pés, depois de serem verde-esmeralda & azul-turquesa, e também vi uma foto do jovem Eusébio no bar lá do sítio, ao lado de N ilustres que por ali tinham po(u)sado algures, ao longo dos seus destinos.
Depois continuámos a caminhar por entre árvores (2), plantas e flores de muitas cores e aromas vários, até que a incerta altura num morro inesperado e cheio de um céu azulmuitoazul, vi uma tabuleta tosca de madeira com a palavra: “PARAÍSO”.
As minhas companheiras apanharam o meu ar aparvalhado e eu apanhei-as a sorrirem apenas cúmplices.

 O que havia a dizer?

Lá descemos entretidos com os pés de cada um, a saltitarem de pedra em pedra, até desembocarmos numa espécie de praia com a água muito transparente e a areia prateada pelo pôr-do-sol que se diluía pelas águas até ao esquecimento.
Sentámo-nos a olhar e a escutar o mundo à volta através daquele ponto de vista, dentro do ponto de vista de cada um e os três juntos com as 6 vistas desarmadas, despidas, deliradas.
Já não sei, e nada me importa, o tempo (o tempo?...) que poisámos ali, a respirar aquele lugar tão belo e simples irrealmente em tudo. Lembro-me vagamente que as palavras eram coisas a mais e a ninguém lhe passou abordar tal assunto.

 

Quando regressámos a Gaibu, numa camioneta que ainda circulava, já lá estava instalada uma noite claramente aberta ás nossas luzes.

 
 

  ----------------------------------------------------------------------------------------------
(1) Sandálias de couro.
(2) Manacás, mulungas, ipês, com as suas flores de ouro, algumas das muitas árvores ainda existentes e caraterísticas da Mata Atlântica no local.
 

 

(Gaibu. Estado de Pernambuco. Brasil)


( Última versão a Abril de 2025.J. A. M. )

 

9.5.25

O olho do mundo dança-me na cabeça

Pintura. J. A. M.

 

há o sol e as matérias primas
dentro do sangue dentro dos corpos
há os dias e as noites absortas
submersas até aos dedos
e ainda há o Mundo e as pessoas
os animais, as árvores, a Natureza
e a vastidão da respiração
que vem do coração da vida
seio de idades invadidas por tantos rostos

e há instantes imprecisos em que somos
quase inteiros
no útero de tudo onde as vozes se instalam
mas só às portas soltam as suas âncoras:
as palavras, as sombras que agora vos entrego.
 
 
O olho do universo dança-me na cabeça
ao sabor das luzes que giram
na alta nudez sem nome.


6.5.25

ANITSELAP

Imagem. J. A. M.

 

Fechados em sarcófagos de ouro, “eles” cantam
a doença que contamina as multidões.
Alimentam as fábricas de escuridão onde magotes de seres
humanos permanecem desabrigados do que é ser-se humano.
Onde muitos partem, enquanto esculpiam a heroica força
na amaldiçoada  fome, na dilacerante sede e na morte
de seus irmãos.
Onde o espelho do mundo é uma testemunha hedionda
consentida pelo intranquilo silêncio de quem dorme.

 

(J. A. M. )

4.5.25

NA PORTA DAS GÁRGULAS

Imagem. J. A. M.

 

Nas montanhas enegrecidas pela tempestade
dançam negros corvos
num zumbido aceso pelos tímpanos
de quem os escuta.
 
É nas sementes que está a força
a indomável e não há tempo
para o tempo já não há
tempo para o nosso tempo.
 
Talvez a estátua de gelo, a
heroína dos escombros
aquela que todos ador(n)am
seja o limbo de recusa
ou da aceitação da noite
em nossos corações

uma chama
que clama
que apenas ama.



( J. A. M. )