16.4.11

é preciso escoar a coisa



Uma mulher negra coberta de panos amarelos sentada num banco de madeira pintado de verde, no jardim.
No banco ao lado, um sr. de camisa e calças  vermelhas, estirado num banco verde à sombra de uma árvore  com folhas ternamente a conDizer , ainda  no mesmo jardim.

O sino do relógio que não sei, vai dando  badaladas bem compassadas ao ritmo do calor hoje mais abafado, será que vai chuvar? O céu faz-me recordar Mindelo e depois o “monte cara” e depois  fiquei ausente
mas já regressei.

Passam mulheres e mulherzinhas agrupadas, com a bunda arrebitada todas janotas em direção à igreja que já está apinhada de gente para a missa de domingo. Espreito na discrição e parece-me haver ali um fervor amornecido, uma entrega naturalmente física à devoção, neste caso católica, mas  acham que a fé, lá no fundo, tem Nº de porta?

No jardim, um casalinho namora espreguiçadamente num outro banco de cimento. Ela deitada sobre o colo à mão de semear e ele com as mãos dedilhadas ao corpo da paixão.   No chão as suas sombras  entrelaçam-se mais sem eles darem  por isso.

Volto a dar 1 passeio pelo Plateau. E volto ao lugar. A meu lado está alguém com 1 ar de quem já não espera nada & também não se rala com isso. Talvez esteja em plena divagação do seu ser  talvez seja mesmo o seu modo de estar, talvez a luz do seu olhar esteja toda estancada no (seu) pequeno sol de dentro, mas que me importa?

Passam mais meia-dúzia de moços todos coloridos, alegres, entretidos lá com eles.
Ouço o barulho de uma moto bastante, olho para lá e  vejo mesmo , a reboque,  um indígena  de patins a deslizar como gente grande……lá vai ele a espalhar o seu imenso sorriso branco pela cidade adiante enquanto a  noite já caiu…

(Adiante, adiante que é sempre cedo para se ser feliz.)



(Texto inicial.Cabo Verde. Praia.Plateau.Agosto.2008)

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