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| Pintura. J. A. M. |
de onde em onda, os relâmpagos ao fundo
assinalavam as vertigens da noite. Aconteciam esporadicamente como se fosse por
acaso, como se o acaso não tivesse dono. Pareciam lentos nas suas próprias
demoras nos olhos até nos sons que só aconteciam às vezes, como as súbitas
surpresas que nos caiem bem.
Entretanto
o terraço no meio da grande escuridão sem
algum fim à vista desarmada, apenas havia as estrelas que me levavam a
vislumbrar a lua acesa no seu C.Q., e assim deixava-me navegar conduzido pela
luz que se fazia presente.
Aconteceu-me há uns tempos atrás, às
tantas de uma viagem prolongada na boca escancarada de um lugar aprovado pelos
seus deuses bem atentos a estas circunstâncias.
Repentinamente, uma sombra
alada veio poisar na mesa onde havia 1 cinzeiro de cobre, dourado na
altura por uma pirisca de Hollywood (1) ainda viva. Tão estranha presença deixou-me atónito. Olhou para um pedaço de papel
onde eu escrevera um poema, e este papel ganhou uma leveza de ave lenta e
começou a levantar-se á frente do meu olhar assombrado. Sem me aperceber, como que
automaticamente, levantei a mão direita e toquei no papel que continuava a
esvoaçar com formas de asas e entre nós havia uma comunhão física que me
dividia entre o espanto da surpresa e a proeza de o ter apanhado de um modo
suave e natural, já o seu voo ia alto. Pousei o papel novamente na mesa
e, quando aconteceu olhar para o poema este já era um outro: mais apurado mais
perfeito, pensei na altura.
Por algum tempo julguei
tudo isto como um sonho, e num momento de dúvida mais agudo fui ao álbum das
fotos (2) e reconheci facilmente aquela “sombra alada” com o qual dialoguei por
momentos, com alguns relâmpagos silentes a interromper-nos. E, na foto o poema
evolava-se como uma pequena chama.
(1 (1) Marca
de cigarros.
(2 (2) Perante
a novidade do acontecimento tirei uma foto rápida com o telemóvel.
(Trinidade. Cuba.)
(J.A. M.)