José Alberto Mar. Com tecnologia do Blogger.

28.3.25

O Sopro

PINTURA " SOPRO". J. A. M.

 

Já não me recordo se era uma luz exterior 
ou vinda de dentro de mim, mas tudo
estava incandescente
de uma forma natural e o Mundo
tinha um amplo sentido exato
em todas as coisas.
 
A certa altura, olhei-me de longe
e com o passar dos anos aprendi
a esquecer-me de mim.
 
No entanto, sou cada vez mais
esse vaso de luz
onde a luz me ensina.


( J. A. M.)

 

20.3.25

) eu falo para ti (

Pintura. J. A. M.

 

      Alguém passeia-se algures por caminhos e paisagens onde há pedras pelo chão e acontece-lhe curvar-se de repente, por algo que o chama sem dar-bem-por-isso e há um diamante entre as suas mãos, o olhar turva-se pelo brilho que o sol, atento a tudo onde há vida, lhe oferece no mesmo instante e depois há quem veja logo ali um presente, ou há quem não dê conta do vislumbre que lhe aconteceu e continue apegado aos seus hábitos, atirando o pequeno seixo para as águas de 1 rio que desliza por perto no seu ocaso indiferente a tudo isto.
      Os hábitos escravizam, tornam-nos cegos.
     Todos os dias acontecem coisas assim, parecem banais porque são diárias, mas não o são, não.

      Nada é banal nesta vida que nos está acontecendo.

     E por aqui os diamantes não têm quaisquer preços, são iluminadas fontes metafóricas, criadas pela infindável sede que habita os profundos lençóis da Terra. E das pessoas, também.


  - Quanto demora uma idade a ser luz?


 

 (J. A. M. , Ourique. Alentejo. Portugal)

 

16.3.25

Ecos de Cabo Verde

Pintura. J. A. M.

     

               (dá tchuva na tchón áoje, foi milagre d`Deus(1)

     O céu cheio de manchas acinzentadas umas mais outras menos escuras sobre um fundo que se pressente azul. O “Monte Cara” sempre pousado na sua lonjura pensativa e sempre tão presente no caroço da alma de cada mindelense. Os aromas nostálgicos do ser de uma ilha com as raízes mergulhadas nas águas demoradas do eternamente mágico oceano(2), os sons de uma morna abrindo a noite como quem pede licença para entrar mas já se instalou suave e inteira, abrindo os braços a quem quiser estar, a menina de camisa encarnada e mini-saia-abertamenteazul com as duas coxas de ébano polido demoradamente nuas e brilhantes até um determinado ponto inexato, os 2 amigos calados & unidos a uma garrafa de grogue, a criança ainda de colo de camisa cor-de-rosa  e 4 totós verde-alface  no cabelo encarapinhado a chupar uma manga pela boca adentro e uma gota a cair-lhe doucement pelo queixo até à mão naturalmente aberta da mãe absorta aos sons do Paulino Vieira(3), unindo-nos a todos num só abraço  unânime e depois lá fora vislumbro através do feixe de luz da porta com uma nesga aberta, os ruídos dos ilhéus que vão e vêm dos seus destinos circulares e ali na estrada, agora mesmo, alguém vai sentado ao contrário , numa bicicleta que desliza sorrateiramente pelas azáguas(4) afora, mas que arte será aquela?

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[1]   “hoje choveu, foi milagre” (crioulo do Barlavento).
[2]   Atlântico.
[3]   Cantor cabo-verdiano (1956).
[4]   Poças de água da chuva (crioulo do Barlavento).



( J. A. M. ~ Cabo Verde)


9.3.25

eu vim de longe

Imagem trabalhada. J. A. M.

eu vim de longe, de muito longe
do pó das estrelas, do vazio dos astros
do silêncio infinito
da longínqua aliança da Fonte.

eu vim de longe
da cegueira das pedras, do fogo
colorido das flores
das cavernas escuras
onde desenhei o queixume da ausência
desse misterioso Ser abismado em mim.



(J. A. M. - 09/03/25)


7.3.25

Mauro, o poeta da Ilha

Foto trabalhada. J. A. M.

     

     Arrastava mais um pé do que outro e eu reparei no seu ar luminoso abrir airosamente a noite. Ia a passar perto do meu lugar e eu senti logo que podíamos trocar algumas luzes. Convidei-o a sentar-se ali, por baixo da grande árvore noturna. Vi o seu olhar inclinado para o meu copo ainda cheio de Brahma (1) e perguntei-lhe o que bebia. Não tardou a abrirem-se as nossas portas, uma de cada vez e cada uma no seu lugar mais claro e mais íntimo.
      Era um poeta e eu disse-lhe que também era um aprendiz de poeta. Ele lembrou-se deste pormenor mais tarde, durante uma noite em que amizade, alegria e o mistério do “bumba-meuboi”(2)se entrelaçaram com ambos no fim iscados (3de todo, tombámos e acordámos na Praia da Guia e ao mesmo tempo num silêncio cúmplice fomos mergulhar no mar para acender o dia.
      Ele arrastava uma perna quando andava, mas falava sem arrastar nenhuma das suas asas. Aí, ele crescia em voos cheios de altura e distância e, às vezes, descia um pouco, para recitar um poema seu, que parecia ler no meu rosto. Eram sempre longos, feitos de simplicidade e lonjura e eu ficava mais pequeno a escutá-lo e a olhá-lo com todo o orgulho do mundo, pois já éramos amigos.
 
     Hoje, imagino-o a levantar a noite da sua ilha, livre como sempre, feliz e a cantar alegremente toda a escuridão que há na sua vida de poeta.

   

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[1]   Marca de cerveja brasileira.

[1]  Existem várias versões acerca desta lenda nordestina. A história mais comum refere a escrava Catirina ou Catarina, grávida, que pede ao marido Chico ou Pai Francisco para comer língua de boi. O escravo atende ao desejo da esposa, matando o boi de estimação do patrão. O crime de Pai Francisco é descoberto e por isso ele é perseguido pelos vaqueiros da fazenda. Quando preso, são infligidos excruciantes castigos e, para não morrer, Pai Francisco, com a ajuda de pagés, ressuscitam o animal. Todos, então, cantam e dançam comemorando o milagre. Esta lenda tornou-se motivo das maiores celebrações culturais e festivas em todo o Estado do Maranhão. O “bumba-meuboi” maranhense recebeu do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) o título de Patrimônio Cultural do Brasil.

[1]   Embriagados, bêbedos (dialeto maranhense).




(J. A. M. em São Luís do Maranhão. BRASIL)


5.3.25

Encontro

Pintura. J. A. M.

 

Foi um olhar, foi um abraço, foi um beijo
demorados gestos que se prolongam até hoje.
 
A leveza e o peso da vida quando
inesperadamente a memória se desenlaça
e surge no fundo de nós um halo colorido
que nos levanta.


( J. A. M.)

28.2.25

Ecos do Brasil

Pintura. J. A. M.

    


    Estou na Ponta d’Areia([1]). Deitado ou sentado à sombra, aí uns 30 e tal graus. O guarda-sol é cor de mangas maduras e eis à minha frente o mar vivo e aceso. Do céu vários azuis luminosos descem naturalmente sobre tudo o que é vida.
     À minha volta, o povo espraia-se finalmente no seu domingo. As crianças vivem à solta por aqui, onde o mar deslaça dia e noite as suas ondas e elas, as crianças, dão cambalhotas e correm chapinhando a água dócil, entre pequenos sal/tos de quem está mesmo felizmente feliz e quer continuar assim, sem precisar de o querer. Há gazelas morenas, umas a seguir às outras, é difícil acompanhar com a merecida atenção tantos ritmos ondulantes e belos, sob este sol de Deus. Passa uma caipira([2]) com o peso dos anos no rosto grudado pelo sal que vagueia pela aragem e com uma caixa transparente no braço leva ovos de codorniz, camarão cozido, umas comidas que outros irão comprar, com certeza.
     Olhando para trás, vejo 2 candeeiros públicos ainda acesos, o que não me espanta (pois em Portugal também acontecem estes descuidos) a despontarem entre as cabeleiras verdes das árvores sossegadas e claramente alheadas do assunto. É de lá dessas bandas - que chegam até aqui aquelas músicas populares, sempre a tocarem as esferas do coração. Muitas pessoas cantam-nas em grupos e alegram-se simplesmente assim.
     Um papagaio caiu, tombou mesmo agora a meus pés e re/ paro que é feito de plástico, que já foi saco de supermercado + uns pauzinhos de coqueiro aliados, e ainda mais agora, o menino já o ergueu no ar e aquela coisinha frágil como Tudo, dá curvaS sozinho com a cauda louca sem tino e esburaca o espaço, rodopia veloz e depois ,,, cai outra vez no chão aparentemente sólido do mundo e a criança continua a ser criança a brincar e já é muito, tomara eu.
     A menina do bar, mini-saia de ganga boa perna, camiseta vermelha desabotoada, bandeja prateada na mão esquerda, já aviou mais umas garrafas de Sol([3]) a uns jovens que estão pr’ali num forrobodó evidente e regressa ao balcão, esvoaçando um olhar geral pelas mesas dos seus clientes.
     Um bandozinho de sabiás-da-praia passa à frente do meu olhar a rasarem o grande areal, com cadeiras e mesas azuis, vermelhas e brancas e desaparecem numa curva uníssona do tempo, o que é feito deles? pensei, enquanto uma outra parte de mim se regala a misturar as cores do cenário em jogos infindáveis.
     Lá adiante, lá mesmo ao fundo, onde o céu se afunda numa tira horizontal de água mais cintilante no brilho, faz-me lembrar que amanhã irei a Stº António de Alcântara, por onde um touro ([4]) passeia a sua estrela de cinco pontas na testa carimbada, em noites de lua cheia.


(São Luís. Estado do Maranhão. Brasil)


[1]   Praia localizada a cerca de 4 km do centro da cidade de São Luís, muito movimentada principalmente aos fins de semana, pela população local.
[2]   Pessoa humilde do campo, da roça, do interior do Estado.
[3]   Marca de cerveja mexicana, bastante consumida por estas bandas.
[4]   Segundo uma interpretação livre de lendas populares brasileiras, na Ilha dos Lençóis, D. Sebastião mora num palácio de cristal que se ergue no fundo do mar próximo à ilha considerada encantada. Consta que o rei vagueia pela praia, durante a noite, na forma de um touro com uma estrela de ouro (ou de prata), na testa. Se alguém conseguir atingir a estrela e ferir o touro, o seu reino será desencantado e D. Sebastião poderá regressar a Portugal.
- Há quem relacione estas lendas, com a possibilidade do “5º Império”.


( J. A. M.)

 

25.2.25

Foto. J.A. M.

 

Vê-se como a noite transfigura
o olhar
e tudo à volta enaltece
um outro mundo
onde os nossos olhos se inclinam
para dentro
desenhando as formas que chegam
com uma luz alheia, uma luz cheia
de novos horizontes
onde somos os mesmos sendo outros.


( J. A. M.)

21.2.25

Não corras atrás das borboletas...

Foto. J. A. M.

 

Alguém disse já não me recordo, pois foi num campo de batalha e o ribombar das bombas e dos seus ecos na altura, faziam-nos surdos. A outros, faziam-nos cegos. A outros ainda, faziam-nos mortos.
Mas a frase em questão, no meio daquele inferno encantou-me o lugar e por momentos caí num silêncio sem tempo, que me trouxe a casa da minha infância, longe muito longe, onde havia um jardim. E a frase era assim: não corras atrás das borboletas, cuida antes das tuas flores que elas virão até ti *.
 
Ainda hoje, passados séculos, por vezes em dias ou noites em que tudo parece estranhamente desolador, me acontecem as imagens bem nítidas que esta frase levanta à frente do meu olhar.
E então, algo em mim se transforma e tudo à minha volta também.
E, uma flor expectante e incógnita aflora por dentro.


* frase atribuída, a D. Elhers, em tradução livre.


(J.A.M.)

11.2.25

Foto. J. A. M.


Escuta

como o ar brilha em silêncio nas nossas veias lavradas

e os cometas dos sonhos transportam minuciosas luzes

para dentro da nossa escuridão, é um corpo sempre com

um lado esquecido, o ouro, dizes, navega pelo sangue

entra e sai pelos poros e o olhar torna-se o lugar das aparições,

inaugura o tempo que volta escondido sob os primeiros sinais

das madrugadas.


(J. A. M.)




8.2.25

Últimas Notícias

Pintura. AUTO~RETRATO. J. A. M.


O grande Mistério assola
a nossa atual tempestade. Ou seja
quer libertar-nos. 
Para quem (se) encontra.

Duvidar para quê?
se o teu brilho
é fogo ou frio
e danças entre os espelhos dos deuses.



P.S. "a imensa rede de 86 bilhões de neurônios do cérebro humano"
e apenas um coração.

 



( J.A.M.)

 

28.1.25

Caminhos Peregrinos


Pintura  ( J. A. M. )


Os dias acordam as várias faces
da luz.
O poder inexorável do Mundo
vem das raízes
do sol.

Dias absolutos
nos seus fulgores errantes
impelidos para além
de todos os gestos dos mortais.
Todos os tempos da memória
são espasmos próximos à madeira
quando aumenta os anéis
nos troncos das árvores. Todos
os segredos da Terra
são gerados em silêncio
em geométricas formas moleculares.

E o jeito dos olhares...o enredo
toca o centro
e o dia despede-se
para todos os lados
em luzes aliadas com as sombras.

Olhamos, respiramos toda a vida
toda a arte
é transparente. E depois apaga-se
o lugar repentino
que mal se vê
e já não se encontra. 
Nem o caos. Nem a ordem
ou a lembrança.


( J. A. M. )



22.1.25

Os Dias Breves Visões

Pintura. J. A. M.

Enquanto todos os instantes de uma vida desenham a
superfície do rosto e o olhar aprende a ser uma porta
para a eternidade cada dia é uma entrada uma saída e
no fundo do corpo fica um halo de imagens cercadas
pela surpresa calada do Mundo.


( J. A. M.)


18.1.25

Para quem é mendigo à frente do prodígios do Mundo

Pintura. J. A. M. 

De folha em folha os horizontes alongam-se para os olhos de quem 
é mendigo à frente do prodígios do Mundo. Há um nada absoluto em
cada gesto uma idade e um peso de estrela a cair na sua luz até nós.

Olho à volta, agora esquecido de tudo e de súbito vejo-te, como uma
frágil papoila, a deambular pelos seus íntimos sonhos coloridos.
Enquanto a minha voz se perde no meio da luz que me dás.


( J. A. M.)

31.12.24

Tempos de transição

Pintura. J. A. M.

 

Há novas luzes nos céus pouco límpidos deste mundo.
Permanecem um desentendimento algo que transcende.
Entre as dúvidas e as certezas arde o silêncio da curva
fechada da ignorância, da distração, da língua de alguns
desalmados, que não coroam sua expressão fraterna.
Vivemos tempos de transição.
Há sombras que se iluminam e se dissolvem, há luzes
que se ordenam exasperando os olhares.
Por mim, para já, não sopro nenhuma bandeira, não assinalo
nenhum jogo.
Tanto vale anunciar como apaziguar uma perplexa descoberta
pois as multidões permanecem persuadidos por outras quimeras.
Alimentam o mistério. TUDO é sempre um mistério.
Na minha cabeça as oficinas trabalham em vão.
No meu coração tudo se alinha. Na minha intuição, também.


 
(25-11-24 - J. A. M.)

21.12.24

Parece haver um destino nesta viagem

Pintura. J. A. M.


o barco acompanha a sua sombra ondulada pelas águas do rio. É um rio largo, com as margens erguidas por uma floresta imensa. Que na lonjura escurece todos os nomes.

Por cima pássaros e nuvens passeiam-se com o sol por testemunha.
Parece haver um destino nesta viagem.


( J. A. M.)

13.12.24

A Vida é um sopro

Pintura. J. A. M.

 

Era a infância e já havia barcos viagens outros mundos. Assombrosa era a delicadeza dos percursos, a natural intimidade dos encontros, as inesperadas novidades.
Os dias cresceram, os anos cresceram a luminescência do sobrenatural também.
Vi na antecipação das auroras, a linha inexistente entre a luz e as sombras. Vi com os olhos, as mãos, o corpo inteiro.
Era o sobressalto da idade adulta. O brilho arrefecido onde supliquei pelas antigas manhãs.
E voltei a aperfeiçoar-me no centro das peregrinações. A viagem prossegue. Amaciando o clarão, onde metade de mim floresce e a outra metade adormece.

(28-11-2024)

30.11.24

EXERCÍCIO ALEGÓRICO À BELEZA

Pintura. J. A. M.

 

Longos dedos têm o silêncio

nas muitas palavras acordadas. Inventam

rios de peixes completos na cor

estrelas austeras como cardos

e das fontes por onde bebemos

não a água, mas a sede

chega-nos ao rosto esse anónimo jardim

com sementes sonhadoras ainda

em exercícios geométricos e sonâmbulos

onde invisíveis mãos já tocam extasiadas

uma repentina beleza para os nossos olhos.


( J. A. M.)

 

15.11.24

O TRIÂNGULO DE OURO

Pintura. J. A. M.

 1
 
Enquanto expões o rosto
o mundo atravessa-te o corpo a meio
e de ambos os lados
ficas nu.
 
2
 
Venha essa nudez trazer-me a simples explicação
para as incertezas serem tão grandes
e as mãos poderem tão pouco
tanta matéria com sinais.
 
3
 
Colher escolher à tona o desejo mais fechado
entrega-lo aos olhos e dizer: como acontecesse o coração
no seu exato pensamento. Onde felizmente
há música na geometria dos astros
e um início de ouro a cada momento.


(J.A.M.)

18.10.24

Deus viaje em nós

Pintura. J. A. M.


- Dizem: Deus viaja em nós perante o imenso espetáculo do desconhecido.

- O poeta pergunta, separa um a um os raios do sol interior que em si afoga.
E cercam os seus limites.
Tenta encontrar-se.
Mas fica sempre um eco de um grito, que depois é um outro e mais outros, onde o poeta se transforma através de um domicílio sem dono.

 



( J.A.M.)

7.10.24

Não é fácil ser alto por dentro

Pintura. J. A. M.

 

Há pétalas de flores incógnitas na noite e neste céu há mais estrelas.
E as pétalas rebentam libertadas por uma luz que transpira sombras.
 
- Eu sabia que podia descer ou crescer no desafio, eu sentia o halo aventuroso da vida, eu despertava vagarosamente para os enigmas do sol.
 
Mas…entre mim e todas estas promessas, o tempo era o inicial ramo de pétalas, o enigmático intervalo que, tantas vezes, trazia uma fadiga na procura.
E, igualmente me basta, porque cintila sempre um coração em arco, um halo de concha vidente, que obstinam os meus desejos de ser humano.


( J. A. M.)

27.9.24

" Veritas lux mea "

Pintura. J. A. M.


Como uma borboleta perturbada á volta da lâmpada acesa.
da cega lâmpada no olhar da borboleta.

- Até onde nos sustenta a lucidez da luz?


( J. A. M.)

19.9.24

Um Poema na Escuridão

Pinturas. J. A. M.

 

A meio da noite quando
os astros fulgurantes aceitam a luz silenciosa das raízes
do mundo 
e há vozes que cantam hinos incógnitos de uma vida
eu escuto
eu adormeço para um outro sonho
mais acordado
por onde se desvanecem todas as quimeras
que preencheram mais um dia.


( J. A. M. )

11.9.24

( entretanto ama os teus amigos)

Pintura. J. A. M.

 

Viemos de longe.
Da vagina das mães, prenúncio dos dons cósmicos, a inaudita descoberta
- rebentam-me os lábios com tais palavras.
 
Uma luz impaciente invade-me. Eis o prestígio do que é diário e parece comum. As ondas desdobram-se em ondas. O mar respira, inspira, não se esforça por ser, em vertigem, em confissão, em celebração – naturalmente.
Eis a exatidão do que em nós também é. E esquecemos.
Dissimulados nos dons, somos sempre o desconhecido lugar da saída, com todas as portas abertas.
Uma cegueira enorme escuta o silêncio, depois do confirmado enredo da vida. Estamos aqui, a palavra repete-se: “aqui” e a onda desaparece nas areias dos nossos distraídos desertos.
Inalterável esta estória refugia-se mo corpo. É o corpo que enobrece a distância, é o corpo que abre as distâncias, é o corpo que se despede das distâncias.
 
Ninguém perturba ou acrescenta o teu caminho. Somente quem chamas.
E olhas á-volta e vês o que és.


( J. A. M.)
 

6.9.24

Um Sopro Distraído

Pintura. J. A. M.

 

Aqui ao lado, as folhas das palmeiras continuam penteando a aragem que corre atrás de si e por vezes alarga-se até à mesa e leva-me as outras folhas, as palavras, o que me importa?

Na rua as pessoas passeiam-se devagar no meio do tempo. Saboreiam os encontros, param aqui e acolá, trocam poucas frases, poucos gestos, coisas simples, como um sorriso cúmplice na caminhada, já é Tanto!

Um pescador idoso, de boné ainda vermelho e corpo fechado, está esquecido ou estará a lembrar-se, a olharolhar o mar como se lesse um texto antigo.
Alguns barcos assinalam o horizonte e ampliam o céu.
 
Há em tudo uma paz impossível aproximando-se a um sopro distraído de deus no meu olhar.

 


( J. A. M.Gaibu. BR)

30.8.24

SERES COMUNS

SERES ESTRANHOS. Pintura. J. A. M.

há pessoas assim, chegam-nos sei lá de onde, instalam-se num lugar qualquer mais substantivo do nosso corpo onde ciclicamente amanhecemos e morremos e parece que as levamos conosco para todos os lados, sem darmos conta da leveza que nos dão. 

E através do tempo, prolongamo-nos entre pensamentos, sentimentos e palavras anónimas em conversas mais íntimas, sem nada sabermos do que acontece e que importa?


( J. A. M.)

20.8.24

Quanto demora uma idade a ser luz?

As Janelas da minha alma. J. A. M.

 

Alguém passeia-se algures por caminhos e paisagens onde há pedras pelo chão e acontece-lhe curvar-se de repente, por algo que o chama sem dar-bem-por-isso e há um diamante entre as suas mãos, o olhar turva-se pelo brilho que o sol, atento a tudo onde há vida, lhe oferece no mesmo instante e depois há quem veja logo ali um presente, ou há quem não dê conta do vislumbre que lhe aconteceu e continue apegado aos seus hábitos, atirando o pequeno seixo para as águas de 1 rio que desliza por perto no seu ocaso indiferente a tudo isto.
      Os hábitos escravizam, tornam-nos cegos.
    Todos os dias acontecem coisas assim, parecem banais porque são diárias, mas não o são, não.
     Nada é banal nesta vida que nos está acontecendo.
    E por aqui os diamantes não têm quaisquer preços, são iluminadas fontes metafóricas, criadas pela infindável sede que habita os profundos lençóis da Terra. E das pessoas, também.
  

- Quanto demora uma idade a ser luz?


  (Ourique. Alentejo. Portugal)

 

P.S. texto do Livro de Contos Lusófonos: O OURO BREVE DOS DIAS.


( J. A. M.)