 |
Camionete/Restaurante. Mercado de Sucupira. Foto: J. A. M. |
6 horas e tal, as mãos e as moscas e às vezes uma delas está a poisar
AGORA…Zás!…apanhei-te… e depois olho,
olho e não vejo nada
e então, depois de uma noitada em que atravessei vários mundos na Praia (1), já
estou no interior de uma antiga camioneta amarela torrada pelo sol transformada
em restaurante. Depois de ter aviado uma catxupa(2) num
prato de lata redOndo mesmo, sentado numa mesa à porta da dita a colher imagens
da gente que vende coisas, que compra algumas dessas coisas e das pessoas que
passam de um lado para o outro abrindo naturalmente o ar que as ampara.
No geral “a coisa está preta”. Depois, levanta-se nas cores das roupas.
Dá-me a impressão, ainda sujeita a posterior confirmação, que o vermelho é o eleito. Impõe-se só por si, a seguir há os amarelos e os verdes em N tons. O verde-alface é bem considerado por aqui. O
branco, obviamente.
Uma jovem mulher expõe com 1 só braço suspenso exatamente uma garrafa
grande de água gelada e espera alguém que a leve. Tem uma bunda maravilhosa e
sei lá porque é que olhei para este caso. Alguém transporta carne de um animal
já muito morto numa bacia de plástico cor-de-rosa em cima da cabeça, mas o que
eu vejo com estes 2 olhos que a terra há de comer, é uma chusma de moscas
tresloucadas com o manjar. Irão pesar as moscas também aquando do negócio ou
serão o brinde, com certeza.
Lá ao longe o céu está assim-assim-escurecido,
sei lá o que vai acontecer por aqui nunca se sabe e já transpiro bastante,
ponho-me nu, da cintura até à cabeça exponho o peito a alma, tudo.
Passa mesmo à frente do meu nariz uma menina toda sirigaita, vai
retocando os cabelos com uma mão distraída e a treinar o gingar das ancas que
ainda se estão a abrir às sementes que um dia virão, e lá vai ela muito
compenetrada no seu papel de ser gente grande também, à espera de ser amada
quando acontecer e será para breve, vê-se. Ali vai um gajo todo inclinado para
o rádio aos berros na mão esquerda junto ao ouvido do mesmo lado e é música que
não tenho tempo de saber, mas com aquele ar tão feliz é boa de certeza.
Ainda
as eternas mangas, as bananas ao lado juntas ao
quilo, maçarocas de milho tenro, galinhas aos saltos, compotas, bolsas de coco
e outros objetos decorativos feitos de conchas e dádivas do mar, cestos de
folhas de tamareira, sapatos sapatilhas e chinelos para todos os gostos,
mandioca, queijos da ilha de Maio, ervas medicinais, garrafas de manecom (3),
licores, Tudo… e a evidente e dura realidade da sobrevivência. São as mulheres,
sempre rodeadas de bandos de filhos espalhados em brincadeiras por ali, que
erguem toda esta trabalheira. Cumprem-na devotadas e depois, ao fim do dia no
silêncio pesado da noite instalada, desenlaçam-se, encostam ao de leve a cabeça
a uma esperança qualquer que nunca
vislumbrei e ficam assim desimportadas engolidas pela escuridão, até que o sono
as recolha.
O papel dos homens por estas
bandas, parece-me que é atirarem-se a elas esporradicamente e depois bazam logo
na primeira curva do tempo d´encontro às luzinhas do grogu (4) ou desenrascam mais um poiso temporário
algures numa outra ilha deste arco verde, por onde vão cumprindo os seus
ancestrais ofícios de marinheiros vagabundos.
--------------------------------------------------------------------------------
Cidade da Praia, capital de Cabo Verde.
Prato típico da gastronomia de Cabo Verde
confecionado à base de milho, feijão, carne e/ou peixe.
Aguardente feita a partir da cana do açúcar
(crioulo do Sotavento).
( in, O OURO BREVE DIAS, @jose.alberto.mar-2021)
~
#lusofonia #semeadores