| Imagem. J. A. M. |
6.5.25
ANITSELAP
4.5.25
NA PORTA DAS GÁRGULAS
![]() |
| Imagem. J. A. M. |
dançam negros corvos
num zumbido aceso pelos tímpanos
de quem os escuta.
a indomável e não há tempo
para o tempo já não há
tempo para o nosso tempo.
heroína dos escombros
aquela que todos ador(n)am
seja o limbo de recusa
ou da aceitação da noite
em nossos corações
Há
uma chama
que clama
que apenas ama.
30.4.25
Meiri
| Imagem. J. A. M. |
Depois de várias voltas por N ruas obscuras da cidade
pareceu-me que era por aquelas bandas que a festa começava a fervilhar. Num
passeio de uma rua desamparada, encontrei um banco à minha espera e pedi mesmo
ali à Sr.ª da roulotte uma cerveja
bem gelada. Recostei-me, costas com
parede e vice-versa, e pus-me a pastar vacarosamente o olhar à volta: havia de tudo o que era gente, jovens em
grupos soltos e felizmente assim, pessoas solitárias, alguns com ar de quem
procura desinspiradamente libertarem-se daquilo, outros já mais ancorados nas
suas derradeiras sortes, havia casais apaixonados que nem pássaros azurumbados,
havia também mulheres de todas as cores e as mais belas prendiam-me o olhar por
mais tempo, e logo depois, desapareciam pelas portas dos vários bares de onde
se soltavam canções às molhadas e, de quando em quando, tudo aquilo fundia-se
no fundo mais profundo do meu ser e dava-me sede para mais uma cerveja.
Por cima, a Grandiosa escuridão universal salpicada de
estrelas e uma clara sensação de vastidão completamente alheada de tudo.
A incerta altura, uma menina sozinha por fora e por dentro aproximou-se de mim, de cerveja na mão e sentou-se a meu lado. Depois continuou calada, ancorada e eu também não de cerveja na mão. Encostou a sua tristeza desarmada no meu ombro abrigada e eu comecei a cantar. As minhas canções eram peixes criados ali, para o seu mar. E sem darmos por isso, pousámos os olhos nos olhos e começámos a beijar-nos. Já o seu fundo sereno tinha um outro olhar. E uma paixão qualquer aconteceu naquele lugar.
Claro que o dia nasceu sem nos avisar
* Variedade de palmeira, com caraterísticas
singulares, também conhecida pelo povo como a “árvore da vida” e considerada o
símbolo do Estado do Ceará.
(Jacaúna. Estado do Ceará.
Brasil)
J. A. M.
Os Poderes do Coração
Trabalho baseado em estudos científicos, no campo da neurologia e neurocardiologia. O coração possui um campo complexo de células neurológicas. O campo magnético deste, é muito superior ao do cérebro.*
27.4.25
Alguém passeia-se porque deu para tal
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| Parque Natural Topes de Collantes (Cuba). Foto : J. A. M. |
no mesmo instante e depois há quem veja logo ali um presente, ou há quem não dê conta do vislumbre que lhe aconteceu e continue apegado aos seus hábitos, atirando o pequeno seixo para as águas de rio que desliza por perto no seu ocaso indiferente a tudo isto.
Os hábitos escravizam, tornam-nos cegos.
Todos os dias acontecem coisas assim, parecem banais porque são diárias, mas não o são, não. Nada é banal nesta vida que nos está acontecendo. E por aqui os diamantes não têm quaisquer preços, são iluminadas fontes metafóricas, criadas pela infindável sede que habita os profundos lençóis da Terra. E das pessoas, também.
(O OURO BREVE DOS DIAS, Livro de contos. Ed. do autor. J. A. M. 2021)
26.4.25
Premissas para um poema
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| São Tomé e Príncipe. Foto: J. A.M. |
- Melhor que mencionar é ser borboleta à volta da
lâmpada.
- Transgredir o verbo é ofício de pescador.
Por vezes, dourado.
As de dentro, ainda mais.
Nada existe se comparado.
Nada existe separado.
Quando o silêncio liberta as pautas.
- Exaltar os dias e as noites é o glorioso ofício dos loucos.
( J. A. M.)
poema consentido
![]() |
| Imagem trabalhada ~ J. A. M. |
do pó das estrelas, do vazio dos astros
do silêncio infinito
das longínquas alianças
da Fonte.
da cegueira das pedras, do fogo
transmutado nas flores
das cavernas escuras
onde desenhei o queixume da ausência
desse misterioso Ser abismado em mim.
Deambulações à volta do "vinum"
| Autor: J. A. M. |
O intenso aroma da esteva com o seu sangue ou resina onde as borboletas se embriagam. Desde o sul de França, alongam-se até ás montanhas e vales do Douro, onde as suas flores com 5 pétalas outras menos outras mais brancas como as pombas da paz e depois dois pontos vermelhos de sangue pousado em cada uma e um centro amarelo a enaltecer o sol.
na elegância das hastes a vertical
tradição da Natureza por dentro
e por fim “algo especiado” onde o
caráter é ser quem vai sendo
enquanto é e deixa de ser.
25.4.25
iniciações menores
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| Foto ( Norte de Portugal) : J. A. M. |
(J. A. M. ~ 3º rascunho.18-4-25)
24.4.25
Poema em Saldo Nº25
![]() |
| Foto: J. A. M. |
uma data que regressa sempre
transparente à cabeça
um sino pendular nas cavernas do corpo
e então escutá-lo é abrir as potências
do sangue, dos pés até à raiz
dos cabelos, deixar crescer
a vida circular dos dias
pelo silêncio poderoso
se fundamenta um olhar
um sonho, uma estátua invisível
dentro da memória
acorda-se o esquecimento
mantendo a respiração de um país
entre muitos e muitos horizontes.
( J. A. M. ~ 1980. Alterado: 2025)
23.4.25
houve 1 dia que cortei a cabeça
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| Foto baseada em escultura de artesão da Turquia. J. A. M. |
houve 1 dia que cortei a cabeça, falo metaforicamente,
coloquei-a por baixo do braço mais disponível na altura, e fui passear-me. Não
havia sangue, nem dramatismos. Apenas uma imagem deambulando pelas ruas sempre
improváveis da vida, os olhares interrogados dos mortos, longinquamente o sopro subtil de um ato em princípio
original nos catálogos gerais, mas claramente – a meu ver – perfeitamente
integrado nas coisas real+mente vivas do mundo, isto é, da Natureza.
Nunca mais voltei atrás.
Aos poucos a maçada da posição resolveu-se per si tendo a cabeça entrado
paulatinamente para dentro do corpo e indo posicionar-se naturalmente no oceano
das infindáveis células que ainda julgo ter.
Deixei-me da ciência das máscaras. Hoje ando por aqui ou por ali ou por além, e há uma clareza consentânea e unânime, nos meus destinos.
22.4.25
20.4.25
o ar dentro das gaiolas está engaiolado?
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| Máscara & Foto: J. A. M. |
um poder silencioso de se misturarem
nas sombras dos outros
Amam naturalmente os dias que passam
fazem da luz que fabricam
a luz que os apaga
pois tudo na vida
é Maior do que eles
19.4.25
divaganção
![]() |
| Pelourinho de St.º António de Alcântara. Maranhão. Foto: J. A. M. |
A varanda é branca com o sol estampado ainda por cima e ao
lado há o azul~cobalto das águas do mar e do outro, as muitas árvores da Mata
Atlântica emaranhadas nos seus verdes a erguerem uma montanha até à beleza de
um imenso céu, onde muitos pássaros coloridos até nos sons que espalham me
esquecem nos seus voos e só muito tempo depois, felizmente acabo por cair em
mim.
Aqui ao lado, as folhas das palmeiras continuam penteando a
aragem que corre atrás de si e por vezes alarga-se até à mesa e leva-me as
outras folhas as palavras, o que me importa?
Na rua as pessoas passeiam-se devagar no meio do tempo.
Saboreiam os encontros, param aqui e acolá, trocam poucas frases, poucos
gestos, coisas simples, como um sorriso cúmplice na caminhada, já é Tanto!
1 pescador idoso, de boné ainda vermelho e corpo fechado,
está esquecido ou estará a lembrar-se, a olharolhar o mar como se lesse um
texto.
Há em tudo uma paz impossível aproximando-se provavelmente a um sopro distraído de deus no meu olhar.
18.4.25
Poema bem noturno
![]() |
| Obra de artista cubano amigo (Habana).Foto: J. A. M. |
O abelharuco tem um
canto inconfundível, companheiro das vinhas dos vinhateiros e suas vindimas no
Alentejo onde os horizontes são mais longos. Intimamente ligado à terra e ao
saber que dá frutos, calmamente esvoaça entre os chaparros quando lhe dá para tal.
O seu estado de genuína maturidade advém da provecta idade da sua espécie, bem
vivida ao longo de viagens por Aragonez, Trincadeiro, Syrah e Alicante entre
muitos outros destinos. Através dos anos e muitos voos, soube encontrar o equilíbrio concentrado em si
próprio, a libertação do seu ser dentro do corpo. O abelharuco destoa perante os
seres humanos como alguém de “boca longo”, prolongando-se sempre e em todos os
momentos até um final que também é feliz.
Nota: texto inspirado no rótulo: “ABELHARUCO, vinho regional alentejano, vinho tinto. RED WINE.2023” - UV 0427549; Engarrafado por / Bottled by Bio &Bourbon, SA;Contém Sulfitos.
(J. A.M.)
15.4.25
amplexus
![]() |
| O MERGULHO . Foto Transformada. J. A. M. |
a nossa atual tempestade. Ou seja
quer libertar-nos. Para quem (se) encontra.
é fogo ou gelo
e danças entre os espelhos dos deuses.
resguardados
no meio da travessia dos dias
e das noites transfiguradas
nesta saudade sem nomes
Levanta-nos ao de leve os rostos
quando o sopro acontece
quando me abraço a ti
meu irmão, liberta-me desta saudade
deixa que o claro clarão deste reconhecido
encontro, nos encontre.
13.4.25
voltarei, não voltarei?
| Casa do Sr. Embaixador de S. Tomé e Príncipe. Foto: Cantor Arnaldo |
Algures no Brasil cheguei a estar num Paraíso. E regressei.
Agora encontrei outro Paraíso. Não sei se volto a voltar.
Começo por um dos lados: o mar sem fundo, no compasso di roncu di mar (1) a chegar
claraMente até mim. Depois há coqueiros esguios, altaneiros nas suas tranquilas
danças com a aragem muito ao de leve, afinal quem sopra por lá? E há as
tamarineiras com os fortes braços
erguidos para os céus e os seus frutos tombados doados à espera de quem lá
chegue. Palmeiras com as suas folhas dobradas em devoção às 7 portas que
iniciam as noites. Balançam-se também aos sons do mar, da lua que começa a ser
maior no céu indefinito do meu olhar.
Estou nu, sentado com os pés apoiados na varanda azulzíssima e tomara eu estar assim tão nu por dentro. Agora vou colher uma cana de açúcar aqui do meu quintal e depois talvez vá soprá-la numa flauta vazia por aí adiante
Olhando, escutando, aprendendo a ser mais.
O pássaro que me visita todos os dias merece agora toda a
minha atenção. E ele já está ali, na sua árvore de eleição, misturado com as
flores vivas cor-de-laranjas-acesas, pelo meio da folhagem verde escura porque
efetivamente já é noite e tudo está demasiado claro para mim.
(Sidády Vêlha. Ilha de Santiago. Cabo Verde)
(1) “nos sons compassados das ondas do mar”.(crioulo do Sotavento).
(J. A. M.)
11.4.25
msgs do @zécarteiro
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| Desenho. J. A. M. |
O Mestre tinha uma lanterna numa das mãos.
- Mestre - perguntou o discípulo - é verdade que podes ver no escuro?
- Sim, é verdade.
- Então para quê a lanterna?
- Para que os outros não choquem connosco.
10.4.25
8.4.25
PAISAGENS ABERTAS
| Foto trabalhada. Autor: J. A. M. |
Estamos
numa viagem aparentemente longa, “ um homem com pressa é um homem morto “
, eis um ditado destas pessoas apaziguadas entre si deambulando pelo
deserto (1) nos seus ritmos naturalmente
certos por aqui há tempo para tudo pois tudo é tudo no natural silêncio cheio de ecos no céu tranquilo e espaçoso
nos horizontes eternamente demorados no presente o tal tempo que foi expulso
dos dias e das noites daquelas bandas ocidentais por onde desandam tantos
desalmados inocentes & os seus senhores mais desalmados todos a correrem sozinhos cada um com a sua meta e o
descalabro dos seus desígnios impostos e aceites como únicos.
–
Mas, quem os convenceu de que sozinhos vão a algum lado?
(1) Deserto do Sáara. الصحراء الكبرى
* https://youtu.be/eetjwcRph-w?si=AUYL1wjpPpR1ZyqX
(J. A. M. )
7.4.25
Diário de 3 Gatos
![]() |
| INSTALAÇÃO ARTÍSTICA. Ourique.Santana da Serra. Autor e Foto: J. A. M. |
(folha Nº 13)
(…) Então, hoje ensinei os meus discípulos a plantar 1 carvalho (1 e 2). No novo quintal, que aluguei à Junta de Freguesia aqui da zona, vá lá não foram alarves no negócio até não pareciam políticos (depois, dá-nos umas flores para a festa cá da Terra. Está bem!).
Não chamei as crianças nem lhes dei secas de aulas teóricas e essas outras tretas que por aí andam nos ensinos oficiais deste ofuscado e bem~dito país, peguei na pequena haste da futura árvore, construí um buraco a condizer e eles aconteceram ali a olhar para a circunstância. Depois, fui ao poço com um cântaro e despejei a água que julguei necessária à firmeza da terra abraçada às raízes do novo hospede. Olhei para esta obra na companhia de 4 olhos debruçados, atentos, até vislumbrei como admirados e pensativos, quem o haveria de dizer, tratando-se de gatos.
Confirmado a facto em si, in loco, um dia destes haverá um pouco mais de oxigénio para o Planeta, que bem-precisa! há por aí, pelo Mundo a fora, pessoal a fazer o mesmo, graças a Deus! nem tudo está perdido, penso às vezes em momentos de um inesperado fervor e uma boa dose de subitânea esperança.
Enquanto agora os meninos, refastelados na almofada de flores exóticas, de onde várias cores se desprendem, olham para mim como se eu fosse um ser estranho (…)
Francamente...
(1 e 2) A escolha da futura árvore,
aconteceu-me facilmente. No geral, vivo
em Portugal. “A maioria das florestas autóctones do continente de
Portugal eram carvalhais. Daí a razão de existirem tantas terras
com o nome de Carvalho(a), Carvalhal(ais), Carvalhosa, Carvalhedo(a),
Carvalheiro(a), Carvalhinho(a), Carvalhido, e mais especificamente Cercal e
Cerqueira que são arvoredos de Carvalhos-Cerquinhos (Quercus
faginea subsp. broteroi)." (tradução livre)
Flora Lusitanica é um livro de Félix
de Avelar Brotero, com descrições sobre a flora portuguesa,
escrito em latim. Obra, publicada em 1804. Tratou-se da
primeira obra acerca da flora portuguesa sendo descritas 1885 espécies, muitas
delas desconhecidas até então pela ciência, tendo também sido a 1ª que formulou uma nomenclatura da botânica
portuguesa.
Nota:. Para
os Celtas, especialmente para os druidas tratava-se de uma árvore “sagrada” e
há muito a dizer acerca deste assunto, mas por hoje fico por aqui.
3.4.25
MERCADO DE SUCUPIRA
| Camionete/Restaurante. Mercado de Sucupira. Foto: J. A. M. |
6 horas e tal, as mãos e as moscas e às vezes uma delas está a poisar AGORA…Zás!…apanhei-te… e depois olho, olho e não vejo nada
e então, depois de uma noitada em que atravessei vários mundos na Praia (1), já estou no interior de uma antiga camioneta amarela torrada pelo sol transformada em restaurante. Depois de ter aviado uma catxupa(2) num prato de lata redOndo mesmo, sentado numa mesa à porta da dita a colher imagens da gente que vende coisas, que compra algumas dessas coisas e das pessoas que passam de um lado para o outro abrindo naturalmente o ar que as ampara.
No geral “a coisa está preta”. Depois, levanta-se nas cores das roupas. Dá-me a impressão, ainda sujeita a posterior confirmação, que o vermelho é o eleito. Impõe-se só por si, a seguir há os amarelos e os verdes em N tons. O verde-alface é bem considerado por aqui. O branco, obviamente.
Lá ao longe o céu está assim-assim-escurecido, sei lá o que vai acontecer por aqui nunca se sabe e já transpiro bastante, ponho-me nu, da cintura até à cabeça exponho o peito a alma, tudo.
Passa mesmo à frente do meu nariz uma menina toda sirigaita, vai retocando os cabelos com uma mão distraída e a treinar o gingar das ancas que ainda se estão a abrir às sementes que um dia virão, e lá vai ela muito compenetrada no seu papel de ser gente grande também, à espera de ser amada quando acontecer e será para breve, vê-se. Ali vai um gajo todo inclinado para o rádio aos berros na mão esquerda junto ao ouvido do mesmo lado e é música que não tenho tempo de saber, mas com aquele ar tão feliz é boa de certeza.
Ainda
O papel dos homens por estas bandas, parece-me que é atirarem-se a elas esporradicamente e depois bazam logo na primeira curva do tempo d´encontro às luzinhas do grogu (4) ou desenrascam mais um poiso temporário algures numa outra ilha deste arco verde, por onde vão cumprindo os seus ancestrais ofícios de marinheiros vagabundos.
[2] Prato típico da gastronomia de Cabo Verde confecionado à base de milho, feijão, carne e/ou peixe.
[3] Vinho produzido nas terras vulcânicas da
Ilha do Fogo.
[4] Aguardente feita a partir da cana do açúcar (crioulo do Sotavento).
( in, O OURO BREVE DIAS, @jose.alberto.mar-2021)

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